A CASA DAS SETE CELAS

O autor costumava conversar com os personagens dos esboços engavetados, com objetivo de verificar se o proposto fazia sentido. Havia solicitado que Angelina comparecesse em seu gabinete. A convidada, comparecendo, apresenta-se compenetrada: É Angelina, personagem central da imaginação titulada “A Casa das Sete Celas”. Faria um relato no espaço, semelhante ao dos Alcoólicos Anônimos, referentes a experiências vividas.

–… Sei… Sente-se… – diz o autor.

– Agradecida, senhor.

– O que você tem a dizer? – pergunta.

– Vivência da infância e da adolescência, senhor.

– Qual a razão do trauma?

– Um conselho que daria a uma amiga.

– Portanto, inconsistente.

Ela medita.

–… Sei que me arrependeria, senhor.

O autor, encarando-a, acende o cigarro, dando-lhe assim permissão para que ela narrasse o fato que seria apresentado no espaço onde eram acolhidas as reflexões.

A princípio, diria ela aos ouvintes do conceituado espaço que relataria uma recordação. Quando garota, acompanhava a mamãe nas caminhadas destinadas a compras. Agradáveis caminhadas aquelas ocorridas de seus nove a doze anos de idade. Em dado ponto, em uma determinada avenida, tinham que atravessar uma rua. Antes, a mamãe se benzia e ordenava-lhe que fizesse o mesmo. Indagaria o motivo. Mas, como criança não carecia de explicação, simplesmente ouviria: “Obedeça, minha filha.” De fato criança era criança, no entanto, observava e raciocinava. Então, sem muito precisar de exigir dos neurônios, aquela rua representava perigo. Tal ato, o de se protegerem de um possível mal, dava-se na esquina da perigosa rua que iniciava a partir dali e corria à esquerda. Todas as vezes que chegava o momento de atravessá-la, olhava-a ao longo de sua extensão. Retratava sob seus olhos o de viver sob eternos dias chuvosos. Sua percepção também captava pessoas saindo de uma residência. Certa feita, depois de terem se benzido e atravessado a calçada, adentraram uma loja. A mamãe adquiriria algo. Ao deixarem o estabelecimento, cuja causa do retardamento desconhecia, toparam com as pessoas que haviam saído da observada residência. Sua mamãe, nervosa, seguraria os passos com o propósito de se manterem longe delas… Mas a verdade era que ninguém permanecia criança para sempre. Aos dezesseis anos de idade, viera a descobrir a identidade popular da temida rua: “Rua da Casa das Sete Celas.” Depois que relatasse tais lembranças, diria que o raciocínio seria pertinente e entenderiam. Deus havia criado o homem à sua semelhança. Então, quem teria mexido com a cabeça de Eva a ponto de ela praticar a célebre desobediência? Salientaria, inclusive, que até aquele presente momento, só existiam três seres sobre a face da terra: Deus, Adão e Eva.

– Qual a relação entre uma coisa e outra? – indaga o autor.

– Qual a relação entre uma coisa e outra, senhor?

– Sim. – sustenta ele.

– A seita realizada na “Casa das Sete Celas”, era raiz.

Concentrando-se na resposta, o autor fuma e mergulha em pensamentos. Em dado momento, escuta ela dizer:

– Mas me arrependeria, senhor.

– Arrependeria de quê?

– Do conselho que daria a uma amiga.

– A quê você a aconselharia?

– Essa amiga, senhor, sofria de tristeza degenerativa. Um de seus filhos, uma vez nas trevas, fora terrivelmente maltratado. Fato que se repetiu uma vez sob a luz.

– A quê você a aconselharia?

– A visitar a “Casa das Sete Celas”. Alguém me dizia que havia uma cela sem dono. Apressasse, porque era praxe abrirem todos os dias à meia-noite as sete celas. Essa minha amiga, senhor, estaria profundamente ferida. Então perceberia que os seus olhos brilhariam.

O autor, procurando entender, medita.

–… Você se arrependeria do conselho.

– Como disse senhor: o fundamento da seita era raiz. Portanto colaboraria para que mais uma vez as sete celas fossem abertas.

O autor, encarando-a, procura o recosto da cadeira, medita e diz:

–… Pode se retirar, Angelina. Agradecido pela ajuda.

Retirando-se, mergulha em pensamentos.