A HISTÓRIA DO BONECO TUKA

Túlio, 10 anos, deitado e agasalhado, olhava para a jovem mãe. Sentada ao lado, refletia sobre o pleito do filho.


– Estamos de acordo, mama?

–… Estamos sim. − trocaram carícias.

Na sala, pensativa, releu o memorando enviado pela direção da escola. Solicitava que comparecesse na diretoria… Confirmaria o pedido do filho? Era verdade. Mas confirmar aquilo para a diretora da escola parecia desnecessário. Interpretava a brincadeira do filho como ingênua diversão de um garoto solitário...

Na aguardada manhã do dia seguinte, Túlio se dirigiu para a sala de aula e Kátia para a diretoria. Minutos depois foi convidada a adentrar.

–… Sente-se. – sugeriu a mestra empossada, apontando para a cadeira.

–…

– O que está acontecendo, senhora Kátia? − perguntou a diretora.

– O que desejo saber. – replicou.

A diretora, então, disse que Túlio era considerado o melhor da turma e até mesmo da escola. Porém, comparando com os anos anteriores, tinham observado que, naqueles três primeiros meses do ano letivo, o aproveitamento havia decaído. Kátia disse que se mantinha firme no acompanhamento das tarefas escolares.

– Eu sei, senhora… Perdoe-me. Sem desonra. Sabemos que é mãe solteira. Entenderá a constrangedora pergunta que farei. Essa pessoa, o pai do Túlio, visitava a residência de vocês e, de repente, a interrompeu?

–…

– A senhora recebia alguém e, de repente, a visita foi interrompida?

– Nunca recebi, visita, na minha residência.

– Revelarei o que está acontecendo, senhora. O Túlio nos contou que o seu declínio deve-se ao fato de o Tuka o ter abandonado. Segundo ele, o Tuka era o seu companheiro de estudo.

– Tuka?

– Fora esse o nome que dera ao amigo.

Kátia riu.

– Sinceramente, senhora diretora, desconhecia que o amigo invisível de Túlio se chamava Tuka.

– Explique isso melhor. − pediu a diretora.

Kátia explicou que Túlio era o seu único filho e que residiam em um bairro complicado de se ter amizade. Avistava-o no quarto como se estivesse conversando com alguém. Às vezes, levava biscoitos no pires para dividir com o “amigo”. Via naquilo como passatempo de um garoto solitário carente de um companheiro.

– A senhora continua orientando-o nas tarefas escolares, o amigo se fora e as notas despencam.

–…

– Isso nos preocupa, senhora.

– Posso dizer o mesmo, senhora diretora.

A diretora disse que todos tinham conhecimento da história. Porém, graças à liderança do garoto, pois o fato de ser um aluno aplicado tornava por si um líder, a imaginação não havia descambado para bullying. E ela podia imaginar o que poderia ter acontecido.

– Imagino sim. – afirmou.

– A história, senhora, chegou ao conhecimento do senhor River, um fabricante de brinquedos que, logo mais, às 10 horas, nos fará uma visita para presentar o Túlio e os colegas com o boneco Tuka “O amigo da garotada”. Segundo enfeita. Enfatizando o assunto que a trouxe aqui, a história, embora passível de acalento, como vimos, seria interessante que a senhora conversasse com um psicólogo.

–…!

Da curiosidade de Túlio sobre a reunião, Kátia foi sincera. Eram 20 horas ao escutar batidas na porta. Encabulada, uniu as sobrancelhas, pois isso era coisa rara. Ao se erguer para atendê-la escutou: “Entre, senhor River!”, soado no mais afinado dos tons. Ao se inteirar sobre a maestria do filho, avistou um homem desconhecido com um sorriso no rosto. Blêizer e um envelope pardo nas mãos.

– Senhora Kátia. Kátia com K – disse ele.

– É o senhor River, mamãe. – apresentou-o o filho.

– O que está acontecendo, Túlio? − perguntou ela.

Túlio fechou a porta e os forçou a caminharem para sala. O senhor River retirou um papel do interior do envelope, o entregou e pediu para que lesse. Porém, mantendo a fala, disse que se tratava de um contrato. No entanto, ido além de meramente verbal, como assim seria suficiente para o garoto. Estava registrado em cartório. Teriam mensalmente direito a 10% do faturamento líquido da comercialização dos bonecos Tuka. Estimavam obterem excelentes vendas. Enquanto a marca Gougi existisse comercializando o boneco Tuka, os termos do contrato seriam mantidos. Olhou em volta do humilde recinto e disse que deixaria um cheque estimativo, representando 25% de adiantamento do primeiro faturamento. Túlio era um garoto amável, sentimental, observador e inteligente.

Kátia, escutando e lendo o contrato, ao findar não sabia o que dizer, pois nada havia entendido.

– Como se conheceram? − indagou ela.

– Através da internet, senhora.

– Eu que o procurei, mamãe.

– Ao perceber que conversava com um garoto – disse o senhor River − perguntei pelos responsáveis. Respondeu-me que o computador era restrito e que conversava com o senhor River. Emocionei-me por ter um nome honrado. Achei interessante a ideia de um boneco amigo e apostei. E aqui estou, cumprindo o que prometi.

− Essa história foi tramada por vocês? − indagou a senhora Kátia.

− Há três meses, senhora. Como disse, o Túlio é um garoto amável, sentimental, observador e inteligente. Todavia, meu jovem, somente hoje pela manhã que tomei conhecimento do seu acanhado aproveitamento escolar. Isso não fazia parte da estratégia.

Túlio pediu-lhe desculpas e disse que recuperaria.

– Assim espero. No mês que vem, aqui estarei de volta para apurar essa sua promessa.

– Tranquilize-se, senhor River, não o desapontarei.

Foi uma rápida e incisiva visita. Kátia parecia flutuar e, olhando para o cheque escutou:

– Tuka sempre foi o meu amigo, mamãe. Contei para o senhor River, nada mais.

– Criaram um boneco amigo da garotada?!

– Sim, mamãe.