Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.


– Peça não é vingança, tia.

– Em resposta a um agravo não deixa de ser, Milena.

– Discordo, tia.

– Se não for vingança, o que seria, Milena?

– Peça, tia.

– Por favor, Milena.

– Deveras devastador ser abandonado no altar, tia. Também acontece com o homem.

– Lúcios?

– Ele mesmo, tia.

– Escutei algo a respeito dessa desfeita, Milena. Faz tempo que a família Iarque mudou-se para a capital.

– O Lúcios, tia, fora abandonado no altar. Então, partindo do pressuposto. No entanto, baseada no que me contaram, tendo sido, no entanto, a história da peça narrada pelo próprio Lúcios. A via crucis do infeliz Lúcios Iarque iniciou-se na catedral. Repleta de convidados, tia. Iluminada e decorada com rosas suaves. Os familiares dos noivos, felizes da vida, e a noiva empacada. Nada de comparecer.

– Triste isso, Milena.

– Para que a senhora tenha ideia da dimensão do estrago, tia, até parentes dele, que residiam no exterior, compareceram na frustrada cerimônia.

– Repito, Milena: lamento. Lúcios era um bom rapaz.

– Mas, tia, caso Lúcios fosse cabeça quente, de nada adiantaria o desequilíbrio, porque Biana havia “dado no pé”. Assim, a cerimônia encerrou-se em clima de velório. No entanto, paciência não é, tia? Quantos são abandonados no altar e a vida continua?

– Pois é, Milena.

– Lúcios, abalado com o desprezo, colocou o emprego de lado. Porém, o gerente da empresa, o qual havia comparecido na cerimônia do não casamento, após ter conversado com ele, ofereceu-lhe o cargo de técnico-correspondente, ou seja, tia, viajaria pelo país inspecionando redes elétricas. A empresa operava em todo país. Mas Lúcios, desgostoso, queria morrer. No entanto, seus pais, que observavam a conversa, se aproximaram. Lúcios depois de escutar um coral de estímulos, acabou convencido: respiraria novos ares. Fugiria do desagradável ambiente. Então, tia, dois anos depois, tempo esse que será mencionado adiante, Lúcios, viaja de estado em estado, coisa que ainda não havia se adaptado. No estado de Ingra, precisamente no município de Leopoldo. Numa manhã de domingo, à mesa de um bar, o colega que o acompanhava, nativo da cidade, após ter olhado para a casa de portas e janelas verdes, disse que ali residiu o poeta Peralva. Autor de poesias picantes e cativantes. Não havia noite sem lua. O belo da vida estava presente em toda parte. Lúcios olhou para a casa e, por hábito da profissão, observou o convencional: a fiação saindo da casa e seguindo para o poste. Então, tia, omitindo certa particularidade revelada pelo colega, para que assim a história não perca a graça. Dizem que Lúcios contou que, naquele instante, viu surgir em mente o nascer de uma peça.

– Cuja vítima seria…

– Biana, tia. A sua “ex-empacada” noiva.

– Continue, Milena.

– O poeta Peralva seria boa isca: encaixe perfeito. Pois via beleza em tudo. Via beleza inclusive, tia, até mesmo no desfile de uma barata descascada.

– Por favor, Milena.

- “Independente do que for, o dia sempre será um barco deslizando sobre suaves águas.” Então, dias depois, “Peralva”, com uma página criada em certa rede social, espaço esse frequentado por Biana, começou a se aproximar dela. Da aproximação para conversas esporádicas. De conversas esporádicas para conversas regulares. De conversas regulares para conversas reservadas. Os dias se passavam. Lúcios, durante as conversas, esforçava-se para que não houvesse tópicos ‘cinza’. E, quando por parte dela havia, ele lança poesia. Biana entusiasmada e de modo ilustrativo, mostrava a foto de “Peralva” para as colegas e recitava algumas de suas poesias. As colegas vibravam. As conversas reservadas prosseguiram, e surgiram da parte dela curiosidades sobre ele: Quem era ele? O que fazia? "Peralva" não mentia. Era “despatriado” professor de História e apaixonado pela poesia. Ou seja, tia, não ensinava em lugar nenhum. Biana revelou o desejo de conhecê-lo. “Peralva” replicou que o mesmo ardente desejo acontecia com ele. Porém não viajaria para saciar o louco e voluptuoso desejo de tê-la nos braços em razão da vigiada ocupação. Sobre a sua mesa havia uma pilha de teses para analisar. Tão logo o serviço fosse concluído, iria vê-la. Mas, tia, a euforia que envolvia o corpo de Biana não permitia remancha. Disse que iria vê-lo. Com a decisão de Biana, Lúcios orou para que nada de errado acontecesse. Ou seja, tia, que ela não resolvesse subitamente pesquisar sobre a existência dele. Mas, como o próprio Lúcios teria observado, não estava na terra do poeta Peralva. Estava numa pequena cidade, passando-se por um “despatriado” professor de História, apaixonado pela poesia. Portanto só uma averiguação radical que atiraria água no ‘brinquedo’ dele.

– Pelo que você me conta, Milena, Biana estava cega. Não faria isso. Descuido inclusive que leva muitos para a vala.

– Concordo, tia. Fora numa sexta-feira. Biana estava no aeroporto e conversava com “Peralva”, através do celular…

– Ela não reconheceu a voz do ex-amor, Milena. Se assim se pode dizer.

– Segundo o que me contaram, tia, das raras vezes que se comunicaram pelo telefone, Lúcios, disfarçando a voz, falava com os dentes cerrados.

– Entendi, Milena.

− “Peralva” a instruía, dizendo que assim que chegasse à capital de Ingra, embarcasse em um táxi para Leopoldo. O trajeto não passava de quarenta minutos. Ao chegar a Leopoldo, caso o chofer desconhecesse o endereço, não havia problema. Qualquer pessoa saberia informar onde ficava a Praça 13. Avistaria uma casa de portas e janelas verdes. Era a única. Estava aguardando-a. Caso não o encontrasse, atenderia à tia. Comprar pão fresco para ela era coisa rápida. Biana, tia, chegaria a Leopoldo por volta da 16h30min. Durante o voo, e mais uma vez de modo ilustrativo, ligava o celular, olhava para a foto de “Peralva”, lia alguma poesia, meditava e fechava os olhos. Uma jovem que estaria sentada ao lado perguntaria quem era ele. Biana, feliz, responderia que se chamava Peralva, um poeta iria se encontrar com ele.

– Emocionada.

– Muito, tia. O momento para a chegada de Biana se aproximava. Lúcios já se encontrava no posto de observação, no mencionado bar. Só que, dessa vez, no interior do estabelecimento, Acalmava os nervos bebendo cerveja. Eis que, de repente, avista um táxi se aproximar. O carro passa na porta do bar e para na referida casa. Lúcios sente o corpo gelar. Pois, desde que fora abandonado no altar, nunca mais tinha visto pessoalmente aquela repugnante criatura. Olhos tesos na cena. Biana paga a corrida e o táxi parte. Olha para a casa, caminha em direção e bate na porta. Insiste. O momento triunfal, a qualquer momento, aconteceria. Pois, qualquer um informaria o que ela não gostaria de ouvir. Uma senhora se aproxima e lhe diz alguma coisa. Biana, ao ouvir, empalidece. Expressa não ter se convencido do que a senhora lhe dissera. Mostra a foto exposta no celular à senhora, balança a cabeça afirmando. Biana corre os dedos pelos cabelos. Olha em volta, como se estivesse desorientada. Senta no meio-fio, baixa a cabeça sobre as pernas. A senhora tenta consolá-la, mas ela recusa.

– O que foi que a senhora havia lhe dito, Milena?

– Que o poeta Peralva havia falecido há dois anos.

– Meu Deus!

– Lúcios a olhava pensativo. Biana se levanta e, em poder da mochila, caminha desnorteada. Tempos depois, Lúcios recebe uma mensagem: “Estou convencida de ter sido você. Perdoe-me.” Fica por longo tempo olhando para a mensagem. Clica em configurações e encerra a conta.

– Muito triste, Milena. A vida não deveria ser assim. No entanto, Milena, os fracos se vingam e os fortes perdoam.

– Não foi vingança, tia. Foi peça.

– Ora, Milena.