VELHO OESTE - BIL UIL - A HISTÓRIA - I

INÍCIO


Trajava roupas pretas, e, pendente na cintura, um calibre 76, fabricado especialmente para ele. Ocultado no estábulo do amigo e ferreiro, Dam, distraindo−se com o fino chapéu de feltro, descarregava projetos e amarguras.

−Entende, Dam?

−Procuro entender, Uil.

–Foram dezesseis anos traçando cada momento desse dia. Imaginei que esse momento nunca pudesse chegar.

Dam, vestido surrado, avental de couro, estava contente em revê−lo, fundia novas ferraduras. Já havia, com jeito, tentado plantar flor naquele machucado jardim, porém como parecia ideia fixa… Olhou para o amigo envolvido em sombrios pensamentos e perguntou:

−Quantas milhas percorreram, Uil?

−… Uma milha e pouco, Dam, mas houve paradas para descanso.

−Belo animal! Deve ter custado uma nota.

−Tudo continua como antes, não é, Dam? – insistiu.

−Tudo como antes, Uil. Quem foi contínua sendo, só que mais velho.

−Ajuizados?

−Se não são, é porque não querem.

−Fui covarde, Dam?

−Por favor, Uil. Você só tinha nove anos de idade.

−Ainda os escuto implorando para não serem massacrados. A vaca da Manarry, com piadinhas, gargalhava. O porco do Dylan se contorcia de riso. Poderia olhar através da fresta, mas tremia de medo e suava tapando os ouvidos.

−Pavor imobiliza, Uil, não é covardia.

−Sinto−me um covarde, Dam, já sabia atirar e sabia onde os rifles se encontravam.

Dam, para amenizar o tormento, perguntou onde ele se encontrava.

−… – escondido numa peça da sala onde a barbárie acontecia.

−Como você poderia sair e se apoderar de uma arma, Uil?

−…

−A meu ver o seu involuntário comportamento abrandou corações, mesmo enfrentando o insuportável. Porque sabiam que você estava em segurança. Portanto, aposto que as boas almas, Clinton e Barbra, estão felizes onde se encontram. Afinal você carrega na cintura status de um homem bem sucedido.

Bil Uil comentou que fora uma encomenda remanchada e massacrada durante dois intermináveis longos anos. Mas o resultado foi gratificante, haviam produzido um canhão portátil.

−Um canhão, Dam. Você precisa conhecer o poder de fogo.

Dam operou o fole e, puxando a isca que tinha lançado mais enfático, disse que estava lendo a bíblia. Vingança não era boa coisa, só gerava vingança.

−Eu sei, Dam. Juro que sei. Mas só assim para poder acabar com a sinfonia que atormenta os meus dias. Mas o meu tormento, Dam, assemelha-se a de um sentenciado à morte, aguardando, porém, por uma sentença às avessas.

−Por favor, Uil.

−É a verdade, Dam…

Dam disse que a amiguinha dele, de infância, Estefânia, havia se transformado numa bela jovem: cabelos loiros e longos. Sorriso cativante. Vez por outra o visitava e, tímida, perguntava: tem notícias de Bil? Sentia dó de não poder nada dizer−lhe. Sentia dó de não poder acalentar aquele coração angustiado. Lecionava. “Sabendo de notícias me avise, senhor Dam.” “Com o maior prazer senhorita!” Assim respondendo, partia triste e cabisbaixa com livros no peito... Visite−a com um buquê de flores. Flores do campo, Uil. São belas. Aposto que se sentirá feliz e você feliz também ficará. A felicidade maior é ver alguém feliz. Resulta num ato de afeto mútuo e recíproco.

−…

−O amor constrói, Uil. A cegueira destrói. Um mal que deve ser combatido, eliminado, desprezado e esquecido. Porque, por razões, não desconhecidas, associa e procria. Uma semente desprendida que não trataram de exterminar.

Bil Uil, que não desprezava uma única palavra do amigo, ficou observando o companheiro. Havia longas histórias sobre a vida daquele estrangeiro… Confessou que, quando garoto, antes de se entrosarem, queria distância dele. Ouvia dizer que era desertor de guerra.

−Os seus pais diziam isso, Uil?

−Não, Dam. Os meus pais apenas citavam uma ‘resmunga’ sua da qual não me recordo.

Dam sorriu e, reflexivo, repetiu:

−Guerra, senhor Clinton e senhora Barbra, deveria ser igual a espetáculo circense. Só participa quem compra bilhete.

−… Era isso, Dam… Era isso…

Trotes alucinados, poeira em suspensão e flechas velozes passando no rastro do fugitivo.

Dam, após acompanhar a cena imóvel, balançou a cabeça e comentou:

−O aloprado do Roy passa o dia inteiro provocando os Carambolas… – antiga, pacífica e numerosa tribo indígena que habitava as montanhas em volta da pequena cidade.

−… Roy... – balbuciou Bil Uil meditando.

−São praticamente da mesma idade não é, Uil?

−Somos praticamente da mesma idade, Dam.

−Recordo-me que, quando garotos, brincavam de bang−bang.

−Mas brigávamos, Dam. O papel do mocinho era sempre dele.

−Do mocinho perturbado?

Bil Uil sorriu.

−… Do mocinho perturbado, Dam.