VELHO OESTE - BIL UIL - A HISTÓRIA - II

PREPARANDO-SE PARA SEGUIR


Puxando pelas rédeas, Bil Uil dava voltas com o cavalo. Testava as novas ferraduras confeccionadas por Dam que lhe ordenara que montasse.

−… Muito bem! Acelere…

No entanto, pediu para que se aproximasse. Havia um pino saliente que estava fazendo-o mancar… O ferreiro ergueu a pata afetada do animal, aplicou alguns golpes de martelo no pino rebelde e mandou que repetisse o teste.

−… Excelente!

Com o animal, pisando firme, Bil Uil o estancou junto do amigo e, dando sinais de que partiria, Dam perguntou se não iria acatar as ocultas, mas compreendidas palavras.

−Compreendia que eu entendia, Dam?

−Compreendia, Uil.

−Mas lamento, Dam! Presentearam−me com um “bilhete”.

Dam tornou−se pensativo.

−Estamos quites, amigo? – perguntou Bil Uil com um sorriso.

−Estamos, Uil. Pagou mais do que o devido.

Partindo, Dam, ainda pensativo, adentrou o estábulo, se desfez do avental, guardou as ferramentas, apagou o fogo, colocou feno nos coxos, fechou o estabelecimento e montou no cavalo, com endereço certo, em mente, do lugar onde se abrigaria. Sabia que, na primeira detonação ecoada, viriam atrás dele e eles não eram nada piedosos.

Ainda não havia escurecido. Bil Uil, a poucos metros da cidade, sentava−se sob uma árvore aguardando a noite chegar. Recordava-se do dia da forçada partida, ocorrida há dezesseis anos, órfão e abandonado na rua… “Suba, garoto!”. Dissera afável a mulher forasteira. “Suba, rapaz! Brevemente teremos um lar.” Dissera o esposo também afável.” Curiosos, observavam. Estefânia, que ali se encontrava, tinha o braço seguro, firme pelo punho da mãe. Assustado, amedrontado e envergonhando, olhando em direção do Escritório do Xerife, lá estavam eles: o Xerife. Dylan. Isaac. James e Manarry, à porta do prédio, conversando e fumando, acompanhavam a cena. Figuras sinistras que pousam de heróis numa história mentirosa contada por eles mesmos de que haviam aconselhado e lutado para impedir que seus pais se suicidassem. Olhava−os: ‘Voltarei e ai das cabeças de vocês.’ Pensamento fortalecido, olhou para as feições alegres e joviais do casal de forasteiros resolvendo subir. “Palmas!” Festejara a mulher… Casal de dignos malucos, cujo tear adquirido seria a salvação da vida deles.

Envolvido com as amargas e doces recordações, esquecerá a barba. Mas ainda havia um pouco de luz natural. Ergueu−se e, de uma das mochilas acomodadas no lombo do animal, apanhou apetrechos. Pendurou o pequeno espelho num dos galhos da árvore e, num córrego próximo de águas límpidas, ensaboou o rosto… A navalha estava afiada, conferiu.

Tendo a noite caído, montou no animal e seguiu em lentos trotes de encontro à cidade. O Salão Manarry, destino previamente estudado, situava-se na avenida principal que, àquela hora da noite, era rescaldo de um dia. Muitas vezes afogado num dos salões da vida, que no caso era o Salão Manarry, o mais requisitado. Desmontou, amarrou o animal, subiu degraus e empurrou o vaivém adentrando-se.

−Quer casar comigo, bonitão? – ouviu.

Não diferenciava dos muitos sofisticados salões que conhecia: lustres importados, homens às mesas jogando arriscado carteado, caubóis ao longo do balcão embriagando−se, oportunistas dançarinas namorando, enquanto o espetáculo não se iniciava, com fazendeiros “oitentões” endinheirados, e ultrapassadas dançarinas embriagadas e abandonadas nas mesas vazias, implorando por uma aventura… Junto ao balcão, Bil Uil havia solicitado uísque e tragava. Cigarrilha acesa indo aos lábios. Voltado para o salão, acompanhava discretamente os passos da vadia, meditando: “Voltarei e ai das cabeças de vocês.” “… o meu tormento, Dam, assemelha-se à de um sentenciado à morte aguardando, porém, por uma sentença às avessas.”

−Linda como sempre, Manarry!

−A sorte certamente o contempla, querido!

−Acompanha−me, Manarry?

−Depois da vigésima quinta hora, amor!

−Hoje estou a toda lindeza!

−Reside tão próximo, fofinho!

Assim, num deboche recíproco, ia passando de mesa em mesa distribuindo simpatia… Apesar de dezesseis anos terem se passado, a sádica e ambiciosa Manarry continuava imbatível. Vestida num longo verde, maquiada e cabelos arrumados, curvava−se diante das mesas dos abastados clientes envolvidos no carteado… Estava ansioso para enviá−la para o inferno. No entanto, para que a ânsia aumentasse, fora Manarry requisitada por um senhor que parecia especial. Sentava−se a uma isolada mesa. Ouvindo−o, fechava os olhos e balançava a cabeça afirmativamente.

−Entendi.

−Previsão de seis meses.

−Entendi. – disse, afastando−se.

Então, por trás do balcão, Bil Uil, voltou-se, ergueu o chapéu e estendeu−lhe a mão. Manarry, com feição interrogativa, ao segurá−la. Ele, com um sorriso, identificou-se: Bil Uil! Desenhando, imediatamente no rosto da vadia, feia figura de uma carranca assustada.

−…!

−Adeus, Manarry! – anunciou mansamente, mantendo o sorriso e disparando. - Bum!


−… Com mil diabos! – gritou alguém.

Crânio esfacelado voara em todas as direções. Restando de Manarry, em frações de segundos, um corpo sem cabeça tombado no chão.

Perplexos, todos de pé, limpavam−se.

−Santo Deus!

Enojados dos fragmentos salpicados com fios de cabelo, Indagavam−se atônitos.

−O que foi isso?!

Dançarinas que haviam corrido para espiar acercavam chorosas o corpo da madrinha morta no chão, sem a cabeça.

−Oh, senhor!

Não demorando para que o salão fosse invadido por três velhas autoridades, algozes de Bil Uil: o Xerife, Dylan e James.

−Quem fez isso com você, madrinha? – implorava em prantos uma dançarina.

A “afilhada”, profundamente sentida, irredutível, socando o chão, insistia em perguntar:

−Quem fez isso com você, amada madrinha?

Soprando imediatamente o Xerife para os dois companheiros, a resposta que ela procurava:

−Bil Uil.

Nome de imediato agrado:

−… Viera em mente… – confessou Dylan. Alto e gordo.

Uma vez, o estábulo de Dam então cogitado, pois era ponto obrigatório de todo e qualquer cavaleiro forasteiro. James pediu para que aguardassem por Isaac. Logo surgiu. Depois de espiar o estado da amiga, juntou−se a eles perguntando:

−Suspeitam de alguém?

−Bil Uil. – balbuciou o Xerife.

−Nome que pensei.

O Xerife passou instruções para Barney, o não oficial auxiliar, e deixaram o salão. Montaram nos animais e, com a mesma ânsia de dezesseis anos atrás, cavalgaram no mesmo escuro da noite, dirigindo-se, no entanto, para o estábulo do ferreiro Dam. Chegado ao local, o Xerife, com o cavalo ainda em movimento, desmontou e passou a vistoriar o estábulo.

−… Está trancado, não há ninguém! – anunciou.

−Ausência suspeita, Xerife! Isso nunca acontece, é residência fixa do mal amado. – replicou Isaac de cima do cavalo.

O Xerife correu o estábulo mais uma vez.

−… Não se encontra…

−Toca fogo nessa merda, Xerife!

No entanto, montou e ficaram olhando em volta.

−… Só pode ter sido Bil Uil.

−Garanto−lhes: será prato cheio para os famintos porcos do Elton.