VELHO OESTE - BIL UIL - A HISTÓRIA IX

TRANQUILIDADE MOMENTÂNEA


Até parecia um lar. Bil Uil havia encontrado um poço d’água, lavaram algumas peças de roupas e colocaram−nas para secar…

−São disparos! – alertou Bil Uil em dado momento.

Estefânia, após colocar seus ouvidos sob escuta, confirmou:

−Bem próximo daqui.

−Bil Uil? – escutaram.

−É, Dam.

−Bil Uil, senhorita Estefânia. – insistia.

−Voz de pavor. – reconheceu Bil Uil.

Dam, montado com Anis na garupa, surgiu.

−Rápido. Acho que os Carambolas fiéis estão impedindo alguém de avançar. – disse ele.

Anis desceu da montaria e se posicionou de sentinela.

−Rápido. – ordenou Dam.

Estefânia recolhia as roupas enquanto Bil Uil preparava os cavalos. Anis, em dado momento, correu, montou na garupa e, em gesto, disse que muitos estavam subindo.

−Andem logo. – pediu Dam avexado.

Montaram. Então, partindo, Bil Uil, mais por ódio do que necessidade, sacou e disparou. Roy, que vinha à frente, não foi atingindo por pouco, porém o avantajado projétil saído do “canhão”, destroçou o peito de um comandado e abriu um imenso buraco na testa de outro.

−Com mil mosquitos! – gritou alguém pasmado.

Assustado, Roy estancou. Fora imenso susto. Estancado e assustado, levou a mão ao ouvido direito por onde, a centímetros, passara o nervoso projétil.

−… Deixemos aí… – disse por dizer: desfeito, referindo−se aos dois comandados que haviam sido mortos pelo projétil. Por pouco, não o dilacerara.

Aclive de difícil acesso: rochoso. A vantagem do perseguido era ter o perseguidor visão obstruída por arbustos frondosos bem como ressecados.

−Para onde vamos? – perguntou Bil Uil.

−Dobraremos a primeira à direita, Uil. Roy acreditará que seguimos para o Rio Voraz.

Observou Bil Uil que por aquele caminho entrariam nas terras dos Carambolas.

−Não há outra saída, Uil. Atravessaremos a zona dos Maus Espíritos… Sairemos na cabeceira do rio, atravessaremos, retornaremos pela outra margem e seguiremos para Guelupe.

−Ir para retornar?

−Isso, Uil. Retornaremos pela outra margem.

Estefânia olhou para Anis e perguntou:

−Por que está com os olhos fechados, Anis?

A Carambola muda respondeu em gestos que temia a zona dos Maus Espíritos. – uma área supersticiosa, desprotegida. Local onde acontecia o roubo de madeira. – Estefânia sorriu.

Roy, vencido o aclive com minutos de atraso, seguido por mais de cem homens, rumou em direção ao Rio Voraz.


Confessava Roy uma hora depois. Bebeu água e contou:

−Perdi-os. Um canhão, papai. Senti o calor do chumbo passar rente ao meu ouvido, atravessou o corpo de um desgraçado e arruinou a cabeça de outro.

O Xerife, não se contendo, esboçou um sorriso e perguntou se não tinham seguido para o rio Voraz.

−Não, senhor Xerife.

James disse que a gravidade era preocupante. Sugeriu que o Forte Lion fosse acionado.

−Precisará da aprovação do prefeito e do juiz, senhor James. – lembrou o Xerife.

Roy, com a mão no ouvido, indagou qual o motivo da medida. O pai mandou que projetasse o binóculo para as montanhas. Observaria estranha movimentação. Alguém, com esterco de vaca no lugar do cérebro, tivera a petulância de invadir as terras dos Carambolas, torturar e matar cinco irmãos a fim de arrancar alguma confissão.

−Não fui eu, papai.

−Fora alguém, Roy, covarde, infantil, ordinário e desavisado. É de conhecimento de todos que os Carambolas suportam tudo menos irmão assassinado por cara pálida dentro de suas terras.

−Dê−me o nome do cretino que acertarei as contas com ele, papai.

James, então em pé, pensou em apontar para ele, porém, se assim o fizesse, teria sérios problemas em casa.

−Com licença! – pediu, retirando.

Avisou Dam, referindo-se à zona dos Maus Espíritos:

−Estamos nos aproximando.

Anis tinha os olhos mais que apertados.

−Tensa, Anis? – perguntou Estefânia.

Estava.

Havia três Carambolas em trajes de guerra interceptando o caminho que pretendiam seguir.

−O que será? – quis saber Bil Uil.

−Se fosse para nos hostilizar, já teriam feito. – replicou Dam.

Interceptados, um dos Carambolas disse:

−Bil Uil, Estefânia, Dam, irmã Anis. Seguir. – apontando para a direita.

−Seguir? – perguntou em gestos Anis.

−Seguir.

−Seguir para onde, Anis? – quis saber Estefânia.

−Seguir de encontro ao cacique Águia Verde. – explicou Anis.

Dam, obedecendo à instrução, esporou o cavalo. Bil Uil, seguindo, perguntou se tinha ideia do que estava acontecendo.

−Águia Verde deseja nos receber.

−Para quê?

−Logo saberemos… Acho que nunca estivemos sós. – confessou.

−Por que diz isso?

−“Bil Uil, Estefânia, Dam, irmã Anis.”

Estavam, na verdade, retornando para a cidade, só que, pelas montanhas, terras dos Carambolas. Na medida em que iam avançando iam ficando impressionados com o que iam avistando: caixotes de armas e de munições sendo transportados e abertos. Carambolas alegres pintando−se. Ensaiando ataques. Cavalos sendo preparados.

−A cidade será invadida. – reconheceu Estefânia.

Anis balançou a cabeça afirmativamente.

−Alguma coisa grave aconteceu, senhorita. – conversou Dam.

O cenário não mudava. O sol já havia, há bom tempo, se recolhido. Sob a ordem de um Carambola, estacaram diante de um círculo grande, formado por tochas. No centro do círculo, havia algo que não conseguiam visualizar. O Carambola ordenou que descessem da montaria e os seguisse.

−Estou com medo. – confessou Estefânia.

Anis expressou dizendo que não era para temer a cerimônia. Ela era de paz.

−Paz?! – indagou Estefânia.

O cacique Águia Verde, trajado a rigor, sentava−se no chão com pernas cruzadas. Ao serem apresentados, determinou que examinassem o que havia no centro do círculo. Obedeceram.

−… Meu Deus! – reagiu Estefânia sem ter muito se aproximado.

No centro do círculo, havia cinco irmãos Carambolas completamente desfigurados... Retornaram e, obedecendo à linha do círculo, dividiram−se em casal e sentaram ao lado do cacique.

−… Estefânia amiga! – disse o cacique – Bil Uil amigo. Dam amigo. Anis rebelde, mas amiga. Eles – cospe – não amigos. Cãozinho – Roy – inimigo do sol, do vento, da lua, das estrelas. Matou cinco irmãos para informar vocês. – assim dizendo, ficou olhando para os corpos irreconhecíveis no centro do círculo.

Em solidariedade, os prestigiados convidados ficaram também olhando.

Estefânia levou imenso susto com o repentino gesto do cacique. Puxara com raiva os cabelos laterais da cabeça dizendo que estava de “saco cheio”. Trocava madeira por mercadorias. Mas eles não queriam comercializar, queriam roubar. Portanto, a resposta viria de onde eles extraíam ilegalmente. Estava de “saco cheio” – repetiu o gesto – cinco irmãos haviam sido mortos dentro das terras deles, não dava mais para suportar. Caso não houvesse “um basta”, os abusos evoluiriam de tal maneira que um dia seriam expulsos das terras. Havia uma cabana para passarem a noite. Assim que cara amarela surgisse no horizonte mostrando a graça do sorriso, despertassem, estavam intimados para combater os irmãos.

−Permite−me fazer−lhe uma pergunta cacique Águia Verde? – inquiriu Estefânia com modos.

−…

Anis balançou a cabeça dizendo que podia.

−Lutaremos contra nossos irmãos?

Águia Verde sorriu e replicou:

−Todo dia, cara pálida luta feroz com irmão.

−Não pode poupar a população da cidade?

−Sempre e sempre, nós mais rejeitados do que os imprestáveis. – assim dizendo voltou o rosto para o lado.

Anis levantou e transmitiu a Dam e aos demais que o irmão cacique Águia Verde não queria mais conversa.

Levantaram−se. Um Carambola aproximou−se e os conduziu para a cabana onde passariam a noite. Ao adentrar, Estefânia voltou−se. Águia Verde, desolado, olhava para os irmãos massacrados expostos no centro do círculo.