CONFISSÃO ENXERTADA

Demarco, implicado na morte do desembargador Bornai, consegue escapar da possível condenação, associando uma suposta verdade a uma fantasia.



Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.


– Uma verdade associada a uma mentira é digna de crédito, tia?

– Claro que não, Milena. Soa como fantasia, não?

– Artimanha praticamente não usada não é, tia? Até porque, por mais fajuta que uma versão seja apresentada, deseja-se que seja encarada como fato e nunca como fantasia, não é mesmo?

– Verdade, Milena.

– No entanto, tia, isso não aconteceu com Demarco. Associou uma suposta verdade a uma mentira para que fosse vista como fantasia.

– Por que fizera isso, Milena?

– Para não ser condenado pelo assassinato do desembargador Blanco Bornai, tia.

– Boa coisa não deveria ser, Milena. Menciona-o envolvido num assassinato.

– Teria sido ele, tia? Boa pergunta. No entanto, não entrarei no mérito da curiosidade. Mas, tia, tal situação não nascera do acaso. Fora um aprendizado? Escute as linhas redigidas pelo próprio, registradas apenas como passatempo: “A bola de nosso amiguinho Nerinho amanhecera cortada. Mamãe, indagando quem havia praticado a maldade, assume a culpa. ‘Como? ’ Com a faca. ‘ Com que faca? ’ ‘Com a faca que guardo sob o tapete. ’ ‘Que tapete, Demarco? ’ ‘Sob o tapete mamãe. ’ Mas por que exaltação de dúvida sobre exitâncias de faca e tapete? O nosso caçula era hemofílico. Então mamãe mantinha severa vigilância sobre possíveis perigos. Assim não acreditou na versão e atribuiu a suspeita a Marquinhos; outro amiguinho nosso, havia brigado com o dono da bola, Nerinho. Porém, tal suspeita não podia ser ventilada. Isso porque os pais dos brigões eram inimigos e aquilo azedaria de vez o difícil relacionamento em nossa acanhada avenida.”

– Não foi ele.

– Continue a escutar, tia. Há citações públicas: “A vida do desembargador Blanco Bornai, tanto pessoal quanto profissional, eram bagunçadas. Recebia todo tipo de elemento no seu apartamento. Assassinado, surgiram nomes suspeitos. Tempos depois, o meu nome foi sugerido por uma testemunha. Semelhante aos demais implicados, neguei o ato. Ora, a vítima era um desembargador que, por mais cafajeste que tivesse sido, era teoricamente respeitável cidadão. Assim perversas flutuantes leis ajustaram-se a meu perfil. As investigações foram encerradas e a mim, o indicado implicado, coube prolongamento dos dias de detenção. Ali apodreceria. Num desses difíceis dias, mamãe me visitou. De conversa em conversa, relembramos a história do incidente com a bola do Nerinho. Retirando-se, amargurada, como não podia deixar de ser, fiquei analisando o distante episódio. Deveria arriscar o jogo da faca e do tapete? Sem finanças para custear despesas extras, ali mofaria por quanto tempo? Mas, para que pudesse decidir, precisaria pesquisar particularidades naturais que envolvem todo e qualquer tipo de situação. Pesquisando nos jornais, descobri que o não desvendo da morte do desembargador interessava a certo grupo. A provável herança que o defunto deixaria para os parentes, estaria assegurada independente do que fosse e o relato do delator era genérico. Para sustentar o testemunho no tribunal, teria de revelar onde estava. Coisa que seria altamente prejudicial, pois era casado com alguém de renome: em frente ao prédio em que o desembargador residia, havia um estabelecimento pomposo, porém extremamente promíscuo. Estava indo bem nas pesquisas para complementar o meu analisado álibi. Mamãe, com a intenção de me ensinar a ser gente, havia deixado um livro que destacava a vida de célebres ilustres homens. Então, munido desse expediente e com informações colhidas nos jornais e revistas, resolvi me manifestar. Deliberada iniciativa, inclusive repleta de empecilhos, pois os interessados pela mudez temiam com o que poderia vir pela frente. Certo destemido juiz determinou o julgamento. Houve grande apreensão. Concorrido, porém sem a presença do público. A portas fechadas, como dizem. Ao ser perguntado por que havia decidido confessar, respondi que tinha lido sobre a vida de Caio Mezon. Um ilustre homem até os quarenta e cinco anos de idade considerava-se não ser ninguém. Mas, em dado momento, despertou que tinha muitos anos de vida pela frente. Suficientes para colocar desejos em prática. Aos sessenta anos de idade, adentrou a sala de um tribunal na condição de juiz. Fora considerado grande professor de Direito e faleceu aos oitenta e oito anos de idade, condecorado como um dos mais nobres juristas do país. Quanto à pergunta em si, de ter resolvido confessar, disse que tinha vinte e cinco anos de idade e pretendia aproveitar o tempo da minha justa ou equivocada sentença para não fazer feio perante a imagem do ilustre Caio Mezon. Evidente que não houve aplausos. Quando perguntaram qual fora a motivação do crime, respondi que recusei o pagamento atirando-o no chão. O desembargador, sentindo-se ofendido, esqueceu-se da perna manca e acertou minha cabeça com a bengala. Enfurecido com o golpe, engarguelei-o até a morte. Ao concluir a fala, percebi sobrancelhas unidas. O próprio advogado de acusação perguntou-me a quem me referia. Respondi que me referia ao desembargador Blanco Bornai. ‘Blanco Bornai não é manco.’ Balbuciou o juiz. O mencionado advogado, apegando-se à conversa de bastidores, frisou que se me colocava na condição de bode expiatório, acobertando alguém, seria julgado e condenado por aquele crime havendo praticado ou não. O meu representante pediu-me para que prosseguisse, porém o aborrecido advogado de acusação quis saber quem havia me apresentado ao desembargador. Respondi que tínhamos nos conhecido na Praça Alves. O gracioso cão spitz soltou-se da coleira e eu evitei que corresse para a rua. Conversamos e, a partir daquele momento, firmamos amizade. A irmã da vítima, em alta voz, acusou-me de mentir. Pois desde quando Blanco Bornai tinha afeição por cães? Conversas exaltadas avolumando-se, o juiz suspendeu a sessão por quinze minutos. O meu defensor, cujas roupas cheiravam ‘a faculdade’. Isso, pois, fora o que mamãe pode pagar. Confidenciou que o currículo inaugural dele seria uma tragédia. Repliquei que sairíamos vitoriosos. Orientei-lhe como proceder e aguardamos pelo reinício da sessão. Sessão reiniciada, o bom estagiário pediu-me para que descrevesse os últimos momentos com a vítima. Contei que tratei de apagar possíveis impressões digitais, saí, fechei a porta, chamei o elevador e desci. Ao deixar o prédio, caminhei receoso porque, no estabelecimento em frente mais ‘insalubre’ do que o próprio apartamento da vítima, havia pessoas na sacada. Continuei caminhando adiante e embarquei num ônibus… ‘Esse homem é louco! No prédio em que titio residia não há elevador. ’ Soou. Meu bom defensor ainda de modo hábil perguntou ao juiz se podia convocar a testemunha. Permitido. Esclareceu que o meu depoimento estava confuso. O dele poderia também estar. Defendia-me na condição de autor e não de bode expiatório. Tinha certeza de ter me visto? Meditou e respondeu que, na porta da farmácia, para onde havia se dirigido a permuta de passageiros: ele descendo do táxi e um desconhecido ocupando. Foi muito rápido, olhando-me de perto não estava bem certo… ‘Portanto, o senhor não está convencido?’ Não. Se não fui absolvido, condenado, também não fui. O processo prescreveu. Quanto ao Livro dos Mestres, confesso que não cheguei a tanto. Porém, deveras, como gente, vou relativamente bem posicionado, vivendo por ai.”

– Teria sido ele, Milena?

–… Medito, tia…