DESFECHO

Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.


– Tia, a senhora teria coragem de participar de um ritual, cujo fulcro consistiria na crença de leveza que se sentia depois de ser zumbi?

– Por favor, Milena.

– Mas, tal história, tia, acabou de forma trágica. A vítima fora a senhora Danúbia, procuradora do estado, assassinada pelo delegado de polícia Feijó. Residiam no mesmo condomínio e a pergunta que imperava não só entre os despertos praticantes de caminhada era: o que estariam fazendo juntos durante a madrugada? O crime era fresco, tia. Então, a primeira testemunha arrolada contou que, ao adentrar a mata, por volta da cinco horas da manhã daquele dia… A segunda testemunha, por sua vez, ao ser ouvida, disse que trabalhava de vigia em uma oficina mecânica situada à beira da rodovia, no sentido acesso à cidade. A visão para a “boca da mata”, localizada do outro lado da pista, não era plena: havia árvores lado a lado. Mas, nas noites de quinta-feira, entrando nas primeiras horas do dia seguinte, avistava por entre as árvores faróis de automóveis... Chegada a vez de o delegado Feijó depor, disse que manteria a versão apresentada ao delegado plantonista e, posteriormente, ao seu advogado. Cursava espanhol, nas noites de quinta-feira sempre que chegava ao condomínio onde residia, entre as vinte e duas e trinta e vinte e três horas, avistava a senhora Danúbia saindo. Na noite do dia anterior, por alguma razão, que até aquele presente momento desconhecia o motivo, resolveu segui-la. Dirigia-se para a saída da cidade. No quilômetro dois, saindo da cidade, sinalizou e estacionou num local arborizado vulgarmente, conhecido como “boca da mata”, onde havia cerca de vinte a trinta automóveis. Curiosidade aguçada, ficou observando. Ela desceu do veículo e adentrou a mata. Seguiu os passos quando avistou uma espécie de ritual. A iluminação era improvisada. Havia homens e mulheres. Jovens e senhores. Caminhavam lado a outro como se fossem “zumbis”. Achou tudo muito esquisito. Havia um tonel, serviam-se nele. Não pôde identificar o que comiam. Querendo entender o que acontecia, ficou observando a esquisitice. A senhora Danúbia entrou na “dança”. O grupo a que ela aderiu circulava como se fossem zumbis em estágio terminal. De repente foi traiçoeiramente imobilizado. Os “zumbis” caminharam de encontro a ele. Foi derrubado e acreditou que seria devorado. Sacou a arma que disparou contra a sua vontade. Correram. Ele também correu. Muitos entraram nos automóveis e partiram. Fizera o mesmo. Às cinco e trinta da manhã, policiais conhecidos batiam à porta de sua residência. Não havia dormido. Ao recebê-los, perguntaram, por perguntar, se a carteira de documentos era sua. Não tinha dado conta da perda da carteira e ignorava que o disparo acidental tivesse produzido vítima. Um dos policiais, revelando o nome, sentiu a cabeça rodopiar.

– Fora a vizinha, a senhora Danúbia.

– Isso, tia. As emissoras de rádio e televisão divulgaram os depoimentos na íntegra. E nas redes sociais a indignação despontava: uma procuradora do estado fazer parte de uma desconhecida seita de doentes lunáticos? Insistiram em massacrar os doentes lunáticos com todo tipo de julgamento e condenação. Porém, a escultora Shirley de renome consagrado, puta da vida com a hipocrisia, anunciou que estaria à disposição da imprensa para falar sobre a confissão do delegado Feijó. Assim, a imensa área disponível do jardim de sua residência ficou acanhada com o número de jornalistas presentes. Disse que estava horrorizada com a indignação do público das redes sociais. Público formado por diversos segmentos da sociedade. Havia lido mais de seis mil postagens. Os participantes do “zumbismo” estavam sendo julgados, condenados e qualificados de anormais. Mas qual seria o sentido de normal em uma sociedade chamuscada? Anômalos eram os pedófilos, os ladrões, os estupradores, os corruptos, a falsidade: o açúcar do bolo. E tudo que envolvesse atentado contra a vida do semelhante. Garantia que o “zumbismo” era um prazer igual a todos os prazeres não anômalos, condenado e vivido ao mesmo tempo pela sociedade. Assim, não havia motivo para indignação. Das mais de seis mil postagens que havia lido, em nenhuma constava menção de invasão de privacidade. O que dava a entender que, para os doentes lunáticos, valia. Portanto, havia muita hipocrisia. Seria o caso do “macaco que não olha para o próprio rabo”. Comiam carne assada durante as reuniões. O delegado Feijó não seria devorado. Testemunharia a morte do “zumbi”, cujo nome seria desnecessário mencionar. Morta pela arma que estava em poder do delegado curioso, com orgulho, e não por gabolice, era escultora de prestígio internacional e, em primeira mão, para seus pais, filhos, parentes, amigos e admiradores do seu trabalho, amante do “zumbismo”.

– Uma pancada e tanto, Milena.

– Exatamente, tia.