"DUETO"

Lana, em dado momento, lamenta que a exposição de arte se aproximava e não tinham nenhum trabalho para apresentar.

– Culpa nossa? – pergunta Gael.

– Evidente que não. – responde Lana.

Gael pausa o filme que assistiam e levanta-se. Ao retornar entrega-lhe um papel.

– O que é isso?

– Leia.

Obedecendo-lhe, leva-o para perto dos olhos e, com a testa franzida, inquire:

– … Que loucura é essa?

Gael conta que havia ofertado algumas moedas a “Fandango”, a pedinte louca. Em troca da bondade, entregou-lhe aquele papel dizendo que continha um ‘dueto’ escrito por ela.

Lana leva-o mais uma vez para perto dos olhos e retruca:

– Escrito por ela?

– Assim me disse. – garante Gael.

– …!

Retira o papel das mãos dela, passa as vistas no mesmo... Diz que mexeria apenas na pontuação, na concordância e nas palavras escritas em desacordo com a convenção ortográfica. Isso, no entanto, desde que não descaracterizasse o original. Palavras inexistentes, bem como frases aparentemente desconexas, permaneceriam.

– Pretende apresentá-lo como se fosse de nossa autoria? – indaga Lana.

– … Não…

–Acredita ter sido ela que realmente escreveu?

– Por que questiona?

– Há vestígios de lucidez.

– Vestígios de lucidez?

– “Oh glacial ser! Rei das estações Amor, Vida e Morte!”

– …?!

– Fora escrito por alguém lúcido tentando retratar a noção de um louco em relação ao mundo que o cerca. Porém, em meio a proposital desorientação visível no texto, o responsável pelo mesmo pincela, não distraidamente, particularidades sensíveis que são completamente ignoradas pelos loucos.

– Particularidades sensíveis que são completamente ignoradas pelos loucos?

– Elos congênitos do Amor, Vida e Morte.

–…?!

Lana pede o texto de volta e recita:

– “Por entre os raios insolares incidindo sobre o ventre das cordilheiras dos Nalpes sombrios. Via-se a lua cintilante a chorar. Amargos, tempestuosos belos dias, flor da divina perfeição mortal! Oh glacial ser! Rei das estações, Amor Vida e Morte! Invernos com rios de chuvas. Verões como rios de sóis! Primaveras com rios de flores! Netunos… Outubros com rios de canhões! Oh Rios da perfeição mortal! Que correrem por entre trilhos do saber ignorante sábio… A doçura da dor. A raiz do calor. O amor… Que a verdizina percorra os quatro cantos… Vá e vá distribuído e tocando cada ser, transformando esses seres em seres… Que o sol desça, que a terra se erga, e que a lua encharque… Oh Pobre lua cintilante a chorar!”

– …?!