"DUETO"

No engavetado esboço da imaginária história, ainda não titulada, constava a seguinte formação:


“Lana, em dado momento, lamenta que a exposição de arte se aproximava e não tinham nenhum trabalho para apresentar.

– Culpa nossa? – pergunta Gael.

– Evidente que não. – responde Lana.

Gael pausa o filme que assistiam e levanta-se. Ao retornar entrega-lhe um papel.

– O que é isso?

– Leia.

Obedecendo-lhe, leva-o para perto dos olhos e, com a testa franzida, inquire:

-… Que loucura é essa?

Gael conta que havia ofertado algumas moedas a 'Fandango', a pedinte louca. Em troca da bondade, assim acreditava, entregou-lhe aquele papel dizendo que continha um ‘dueto’ escrito por ela.

Lana leva-o mais uma vez para perto dos olhos e retruca:

– Dueto?

– Assim me disse. – garante Gael.

–… Coisa de maluco mesmo. – murmura.

Indagada sobre a nota que daria, responde:

– Zero.

– Em qual requisito?

– Em todos.

Gael retira o papel das mãos dela, passa as vistas no mesmo, e discorda. Havia algo de interessante naquilo.

– Onde? – Lana quer saber.

Gael diz que mexeria apenas na pontuação, na concordância e nas palavras escritas em desacordo com a convenção ortográfica. Isso, no entanto, desde que não descaracterizasse o original. Palavras inexistentes, bem como frases aparentemente desconexas, permaneceriam.

– Pretende apresentá-lo como se fosse de nossa autoria? – indaga Lana.

– Manterei os créditos do autor.

Lana pede o texto de volta e lê analisando-o cuidadosamente.

–… Acredita ter sido ela que realmente escreveu?

– Por que questiona?

Lana expressa pensar e nada responde.”

Como sabido, era praxe do autor convidar os personagens dos esboços engavetados com o objetivo de analisar se o proposto fazia sentido. No caso a coisa ia além. Assim havia convidado os personagens Gael e Lana a comparecer em seu gabinete.

– Sentem-se. – disse ele assim que o casal compareceu.

– Agradecido, senhor.

– Dirigindo-me a você, Lana.

– Pois não, senhor.

– Por qual motivo levanta dúvida sobre a autoria do texto?

– Desculpe-me, senhor. Há vestígios de lucidez. Então entendi que jamais poderia ter sido escrito por um louco.

– Vestígios de lucidez?

– “Oh glacial ser! Rei das estações Amor, Vida e Morte!” Por exemplo.

Confessadamente, o autor não esperava por isso.

–… Então não acredita que foi escrito por ela.

– Não, senhor. Fora escrito por alguém lúcido tentando retratar a noção de um louco em relação ao mundo que o cerca. Porém, em meio a proposital desorientação visível no texto, o responsável pelo mesmo pincela, não distraidamente, particularidades sensíveis que são completamente ignoradas pelos loucos. Elos congênitos do Amor, Vida e Morte.

–… Daí gostar de conversar com os personagens. Ensinam-me. – diz o autor.

– Por favor, senhor.

– Recorda-se de todo o texto?

– Lógico.

– Por gentileza.

– Corrigido?

– Naturalmente.

– “Por entre os raios insolares incidindo sobre o ventre das cordilheiras dos Nalpes sombrios. Via-se a lua cintilante a chorar. Amargos, tempestuosos belos dias, flor da divina perfeição mortal! Oh glacial ser! Rei das estações, Amor Vida e Morte! Invernos com rios de chuvas. Verões como rios de sóis! Primaveras com rios de flores! Netunos… Outubros com rios de canhões! Oh Rios da perfeição mortal! Que correrem por entre trilhos do saber ignorante sábio… A doçura da dor. A raiz do calor. O amor…? Que a verdizina percorra os quatro cantos… Vá e vá distribuído e tocando cada ser, transformando esses seres em seres… Que o sol desça, que a terra se erga, e que a lua encharque… Oh Pobre lua cintilante a chorar!”

Após silêncio meditativo, o autor pergunta se apresentariam o texto na Exposição.

– Pretendemos, senhor.

– Seria promissor?

Lana dá de ombros e Gael diz:

– Daremos os créditos a “Fandango”, senhor.

– A desvairada “Fandango.”

– Sim.

–…

– Podemos nos retirar, senhor?

– Podem sim, agradecido.

Retirando-se, o autor mergulha em pensamentos.