O HOMEM DA ESTAÇÃO

Caro Jeremias, a Cidade de Jasmim tornou-se renegada e esquecida. Na Praça Raiz, palco do inusitado acontecimento, há de fato, na lápide, próximo da fincada imensa cruz, um duro pensamento: “Sob a cruz, importante tesouro se esconde. De dia, vigiada por turistas, à noite, por cães.” Os personagens envolvidos na história não mais existem, e a narrativa por vir é apanhada de versões contadas pelos próprios envolvidos na história. Isso, naturalmente, quando em vida. A dura cutucada não restringe a convicção religiosa, é genérica. O falecido senhor Artur Mafnum, autor do pensamento, explica o motivo de ter optado pelo símbolo da cruz. As versões assim iniciam: Vivaldo não viera por vontade própria. Viera designado pela Secretaria de Segurança para substituir o delegado Demires, que havia se aposentado. Vieram com ele o amigo e policial Ricardo, acompanhado da imaginativa esposa Juciana. Estabelecidos, Juciana conhece a bela e conceituada nativa Persuinha, comerciante endividada e mãe solteira, que carregava consigo a dor da perda do filho Alex, de dezoito anos de idade. Contagiada com a simpatia da amiga, Juciana a apresenta ao divorciado Vivaldo, e nasce um romance entre eles. Meses depois, sob formoso luar, o quarteto, em passos descontraídos, retorna da residência dos avós paternos de Alex os quais ainda estavam consternados com o trágico e inexplicável suicídio do neto, ao margear o exuberante prédio da estação férrea. Persuinha, que temia ficar conhecida com a “mãe do louco”, resolve deliberadamente falar sobre o motivo do suicídio do filho. Conta que o dia amanhecia, quando Alex invadira o seu aposento relatando uma perturbadora história. Tinha as vestes rasgadas e sujas de sangue, porém… Segundo ele, retornava da casa de Marli, sua namorada, residente na vizinha cidade de Trim, e acreditou ter cochilado no trem, pois, ao abrir os olhos, o mesmo partia. Mesmo assim, descera por uma porta mal fechada, precipitando−se vagão abaixo. Escuridão e silêncio foram o que viu e ouviu e, num filete de sentidos, percebeu que seu braço direito já não mais lhe pertencia: descansava sobre os dormentes. Avistara, no ínterim, um homem se aproximar, se agachar e recolher o membro que havia sido amputado. Era tudo de que conseguia se lembrar. Ao acordar com o sol daquela manhã aquecendo seu corpo, viu que estava num canto da estação são e salvo, como se nada lhe tivesse acontecido. Atordoada, envolvida naquela situação, questionou-se: com quem andaria? Que se banhasse, se alimentasse e tratasse de dormir. Fora o que lhe dissera. Mas, transtornado, Alex dizia: “Foi Ele, mamãe, creia! Eu vi. Reconstituiu meu corpo.” Fora essa a história que o jovem Alex contou para a mãe, a senhora Persuinha, segundo relato da própria. A senhora Persuinha blasfemou e o filho partiu para agredi-la. Escapuliu e fugiu para o banheiro. Adentrou. Tentando estrangulá-la, pronunciando as difíceis afirmações, escapuliu mais uma vez. Arrebatou a chave da porta, fechou e trancou. Esmurrando a porta, contou a história umas mil vezes. Quando sua voz definhou, se aproximou e, ao avistar sangue escorrendo por sob a porta, a destrancou. Alex estava morto. Havia cortado os punhos com lâmina de barbear. No entanto, dias depois, tornou-se ciente do fato. Fora o senhor Vicente que o resgatara dos trilhos. Um forasteiro que dormia às escondidas no seu pequeno box instalado na estação férrea. Nítido, portanto, que a senhora Persuinha tinha ciência de que seu filho vivera uma ilusão. Com tais insumos constroem uma história oportunista? Foram agraciados. Pois, nos anais, a popular e mensal “Revista Momento” trazia uma reportagem do milionário senhor Neri. Havia recebido vultoso prêmio do seguro. Dizia que sofrera uma queda no banheiro da residência que o deixara paralítico. Afirmava que a má sorte também contemplava os ricos. Mas nutria o peculiar sentimento do pós-trágico: daria tudo o que possuía para viver como outrora. Ora, as amigas Persuinha e Juciana conversavam diariamente. Certo dia, ao dialogarem sobre essa reportagem, Juciana disse que tinha plena convicção de que o senhor Neri se defendia de acusações verdadeiras. Pois, existia forte rumor de que havia dado golpe no seguro. Tinha vontade de testar a má sorte do coitado. Como assim? “O senhor Vicente, o libertando da estripulia que havia arranjado!” Apostava que a seguradora ficaria com cara de melão. Persuinha replicou que não brincaria com a memória do filho. Juciana retrucou que estava enganada e não brincaria, pois, com a memória do filho. Apenas relataria ao senhor Neri o que o seu filho havia lhe contado. Caso o senhor Neri aceitasse se livrar do tormento, não pediria pouco. E ela sairia do abismo. O “abismo” que Persuinha se encontrava fora cavado com a pá de uma transação financeira mal feita. Persuinha lembrou-se de que os companheiros delas eram policiais. Juciana enfatizou a conversa com um muxoxo. Juciana conseguiu o telefone do senhor Neri e ligou para ele. Dois dias depois, o falso paralítico, o senhor Neri, e a esposa estavam hospedados no Hotel Jasmim. Boatos dão conta de que, na primeira madrugada da estadia do casal, Juciana, aos fundos do hotel, colocou um expressivo volume no porta-malas do automóvel de Persuinha que estava ao volante: o pagamento para se libertar da cadeira de rodas, evidentemente. O senhor Neri concedia entrevista, dizia que estava esperançoso de retornar para a capital, livre da cadeira de rodas. Soubera do dom divino do senhor Vicente, através da sensibilidade da senhora Juciana, depois de ter lido a sua angústia publicada na “Revista Momento”. As entrevistas concedidas repercutiam e encontravam sustentação no inocente e gratuito depoimento do respeitadíssimo farmacêutico, senhor Antunes. Como todos sabiam, erguia as portas do estabelecimento, às 5 horas. No dia do falecimento do jovem, avistou-o passar. Tinha as roupas rasgadas e respingadas de sangue. Perguntou-lhe o que havia acontecido. Balbuciou evasivas, apontando para o céu e seguiu. O delegado Demires, o qual registrou a morte do jovem, endossava as palavras do farmacêutico. Embora a senhora Persuinha não tivesse revelado, na época, qual fora o motivo do suicídio, não houve contradição em seu depoimento. Portanto, não havia do que se falar de uma história póstuma tendenciosa. Os necessitados e esperançosos moradores de Jasmim procuravam pelo senhor Vicente, mas obviamente não o encontravam. E o prefeito dizia que a cidade de Jasmim não suportaria tamanho evento. É aí que o senhor Artur Mafnum entra na história. Vê a oportunidade de vingar dos contrários a construção da ponte. O que isso significa? O senhor Artur Mafnum fora o idealizador da ponte sobre o Rio Jasmim e do plebiscito que ainda se repete a cada seis anos para aprovação da construção da mesma. Isso porque o município vizinho de Roseada não é servido pela via-férrea. Então, a população contorna na China para chegar à capital. Com a construção da ponte economizariam horas. Fora essa a intenção do senhor Artur Mafnum. Minimizar, num geral, o sofrimento desse povo… Ora, Jeremias, os que são contrários à construção da ponte continuam a alegar que os vinte e cinco quilômetros de rodovia, que teriam de ser construídos dentro das terras de Jasmim, agrediriam a mata nativa e o manguezal. Mas, na verdade, o que descaracterizam o rio são os dejetos nele lançados, e os tais necessários vinte e cinco quilômetros de rodovia agrediriam a comprida nesga de matas secas, além de maltratar discretamente o agonizante fedido manguezal… O senhor Mafnum, à noite, visitou a residência da senhora Persuinha. Disse que disponibilizaria o Campo de Futebol Raiz, de sua propriedade, para a realização do evento. Comportaria centenas de pessoas sem causar transtornos para a cidade. Não queria um único centavo deles. Queria apenas que o senhor Vicente, antes do ato da cura, citasse uma parábola e um pensamento escritos por ele. Pelo senhor Artur Mafnum. Vivaldo quis saber sobre o conteúdo. Retrucou que a senhora Persuinha sabia que ele era magoado pela não aceitação da construção da ponte sobre o Rio Jasmim. Portanto, a tola parábola era intencionada para amolecer corações: havia um campo de orquídeas que fora separado por um rio de águas turvas. Essas flores, de um dos lados, por alguma razão, mantiveram−se como antes. Mas elas, do outro lado, também por alguma razão, não. Eram irmãs e eram felizes, algo teria que ser feito. Então as orquídeas do lado não abalado, ao compreenderem o que acontecia, reuniram−se e decidiram sugar toda a água do rio. Quanto ao pensamento, seria um oportuno puxão de orelhas. Nada ofensivo, garantiu. Havia procurado por um símbolo que retumbasse veemente a hipocrisia. Como não encontrara, usaria a cruz. Diziam ser admiradores de virtudes. Assim, a escolha acolheria perfis de grandes pensadores: Sócrates, Aristóteles etc. Juciana disse que o senhor Neri queria ampla divulgação da cura. Construiriam um palanque. O senhor Artur Mafnum nada comentou. Fora numa noite de sábado. O Campo de Futebol Raiz estava iluminado e as dezenas de centenas de pessoas expressavam expectativa. Sobre o elevado palanque havia um microfone à espera de alguém. Do lado esquerdo, estava o senhor Neri acomodado na cadeira de rodas, acompanhado da esposa. Policiais uniformizados, prontos para a ação, preenchiam o cenário. O senhor Vicente, um homem de meia idade e de aspecto rude, surgiu e assumiu o microfone. Olhou para o silêncio da multidão e contou a parábola escrita pelo senhor Artur Mafnum. Os cidadãos de Jasmim e do município de Roseada, também presentes, entenderam e se olharam. O senhor Vicente ordenou que o senhor Neri se erguesse. Fingiu dificuldade e se ergueu. A multidão... perplexa! O senhor Vicente, obedecendo à instrução recebida, aproximou-se mais do microfone e disse que, sob a cruz, importante tesouro se escondia, durante o dia, vigiada por turistas, à noite, por cães. Contagiados pela emoção do milagre, a fala passou despercebida. Mas dizem que, naquele momento, a bela e conceituada Persuinha, que assistia à encenação, no meio da multidão, levou as mãos à cabeça e exclamou: Meu Deus, Juciana! Fogos de artifício pipocaram e os policiais, estrategicamente, cruzaram o palanque, e o senhor Vicente desapareceu. O palanque fora montado na cabeceira norte do campo e foi desmontando no dia seguinte ao da encenação. Os trabalhadores, temendo represália, só anos depois, revelaram que havia um fundo falso. O senhor Vicente, depois de ter curado o senhor Neri, precipitou-se e fugiu pelo matagal dos fundos da cabeceira. Os plebiscitos ainda se repetem com o mesmo placar. Os personagens não mais existem e tudo o que resta é a então denominada Praça Raiz. São poucos os que visitam Jasmim e se atrevem a encará-la. Porque, na lápide, próximo da fincada imensa cruz, existe o complementado pensamento redigido pelo senhor Artur Mafnum: “Sob a cruz, importante tesouro se esconde. De dia, vigiada por turistas, à noite, por cães.”