*A RUA

Manhã de domingo. O relógio Cuco pendurado em uma das paredes da sala marcava 10:30 horas. A senhora Rosa, acompanhada da visita, Laura 22 anos, vizinha de rua, atravessa a sala e, na porta da varanda, a senhora diz ao esposo que Laura, vizinha do 25, deseja conversar com ele. Consentindo que se aproximasse, Laura o cumprimenta e ele aponta a cadeira para que se assentasse.
– Importa-se? − pergunta o senhor Guedes referindo-se à mesa. Havia cerveja, maço de cigarros, cinzeiro e isqueiro. Obtendo a resposta que não se importava, a senhora Rosa pede licença e se retira.
– Disse-me que me procuraria. − conversa o anfitrião.
–… Por que o senhor não é um policial agitado? − pergunta Laura.
Com o inesperado questionamento, o senhor Guedes esboça um sorriso, medita e responde:
–… Há policiais cujos perfis se assemelham aos de certos escritores, imaginam que podem mudar o mundo.
– O senhor não?
– Entendo ser impossível.
– Prefere compreender?
– Parece-me ficar mais distante de um infarto.
– O senhor pensa como eu mais ou menos penso?
– Como posso saber o que você mais ou menos pensa?
Laura confessa que havia gostado da narrativa que fizera no bar.
– Sobre o marginal Mário.
– Entendi que vocês, policiais, tinham admiração pelo bandido. O delinquente preservava sobre a estante, contendo livros de apurada leitura, duas molduras vazias ladeadas.
– Alguns de nós tinham admiração por ele, sim.
– Um marginal excêntrico?
– Para se analisar.
– Lenda ou fato?
– Quando fatos envolvem complexidade, no enredo, transformam-se em lendas. Haveria espiritualidade em um descuidista?
–…
Acende o cigarro e conversa:
– Um trabalho para a faculdade que a trouxe aqui. Disse-me durante a nossa breve conversa no bar.
– Escreverei uma tese sobre a essência do ser.
– Sobre a natureza humana.
– Isso.
O anfitrião dosa cerveja no copo, meditando...
– Aceita?
– Agradecida.
– O livro seria uma redação? − pergunta ele.
– Entenderei como se fosse.
– Grato pela gentileza. Há redações que o autor, iludidamente, se esforça para mudar o mundo. Há outras que são tão enfeitadas que o desejo do leitor é o de mergulhar literalmente no conteúdo. No entanto, há outras redações que é nítido que o autor teve o cuidado de tocar na realidade para poder escrever a primeira linha.
– O meu caso. − afirma Laura.
– Viu você? O que me entristece é com a incompreendida força latente que uma redação emana. Não consegue atingir os que realmente necessitam de leitura e muitos, nem todos, que leem profundamente, transformam o conteúdo em uma arma perigosa.
Laura concorda. Olha para a rua e comenta sobre a visão privilegiada. A residência tinha dois pavimentos. Acomodava-se no pavimento superior.
– A rua, diz o senhor Guedes, assemelha a uma cidade, a um país e até mesmo ao mundo. A única diferença é que os donos dos cotidianos vivem próximos uns dos outros. Posicionados como nós estamos, podemos observar toda a extensão de nossa comprida e arborizada rua, ladeada de residências.
–… Magnífica visão…
– Fomos os primeiros moradores desse quarteirão. Vimos, portanto, essa visão lentamente se formar. Às vezes, acredito que o objetivo da vida seja a dos mais velhos contarem para os mais jovens histórias presenciadas ou vividas. Mas haveria quem dissesse: não queira fazer da minha vida experiências que viveu.
– Alguém disse isso para o senhor?
– Presenciei o Afonsim levitar. Caso alguém me dissesse silenciaria. Pois não seria o dono da verdade. Afinal, fora eu que presenciei. Mas a grande verdade, senhorita Laura, o trauma consistiria no fato de o Afonsim ter levitado.
–…
– O que o trabalho da faculdade requer?
– Uma história. Fale-me sobre a senhora Arilda. Pela narrativa que presenciei, o senhor tornou-se a pessoa indicada.
– Sobre a falecida senhora Arilda que deseja ouvir?
– Se possível.
–… São os seus netos pessoas maravilhosas, tanto que ela culminou os dias residindo com um deles. Gesto que irriga a vida. É quando se acredita que nem tudo está perdido.
− É verdade
– Encontrava-me exatamente aqui onde estou agora. De férias e os filhos no colégio, para onde iríamos? Dava voltas no quarteirão, visitava o nosso bar que, na época, era uma portinha e, à tarde tirava um cochilo. À noite, sem sono, trazia para cá um livro, uma garrafa de café e cigarros. Computador e celular eram privilégios de poucos. Então, certa noite, por volta das 1:30 horas da madrugada, avistei uma senhora de cuidada aparência cruzar a primeira transversal. Cruzou da direita para a esquerda. Normal? Não tão normal, mas normal. O fato se repetiu por três consecutivas madrugadas. Curioso, falei para minha esposa que, caso acordasse na madrugada do dia seguinte e não me encontrasse, não se preocupasse, bisbilhotaria o trajeto de uma senhora. Comentei o que estava acontecendo. Assim, às 1:30 horas da madrugada do dia seguinte, aguardei-a passar. Ofertei-lhe distância e passei a segui-la. Atravessando ruas e avenidas desertas, chegamos a Tinhares. Atravessou a rua e adentrou uma ruína. Fiquei sem entender, na expectativa do que sucederia. Resultado: na espreita fiquei, nada aconteceu e amanheceu. Porém, às 6:00 horas, a sirene da fábrica de biscoitos Irandi soou. Momentos depois, a senhora deixa a ruína. Ao desaparecer de vista, adentrei a ruína e passei a procurar qualquer coisa que justificasse aquilo. Ao acessar os escombros de um dormitório, havia no canto da parede um imundo colchão de solteiro, um encardido travesseiro e um lastimável cobertor dobrado. Os trajes da senhora não caracterizam que fosse ela moradora de rua. Havia dormido com alguém? Como e quem? Um colchão estreito e um travesseiro. Nas laterais e aos fundos do terreno, havia muros altos. Além dela, ninguém havia acessado a ruína e, além de mim, não havia mais ninguém. Perdi de segui-la de volta.
– Qual fora o motivo da curiosidade?
– Ainda se fosse nos dias atuais, seria motivo de curiosidade, o quarteirão era praticamente desabitado. Cheguei a pensar que fosse fantasma.
– Jura?!
– Uma senhora, às 1:30 horas da madrugada, surgir do nada? Às 5:30 horas do dia seguinte a espreitava. Queria acompanhar o trajeto de volta. A sirene da fábrica de biscoitos soou e ela deixou a ruína. A cidade despertava a seguir com maior cuidado, pois, oposto ao trajeto de ida, voltava-se no momento de atravessar as ruas já movimentadas. Nesse trajeto, cruzamos a segunda transversal da esquerda para a direita e seguimos. Curiosidade findada no antigo conjunto de prédios Duble: acessou o Edifício Morgane. Intrigado, um senhor cujo filho… Esse senhor me reconheceu. Agradeceu-me por algum passado e passamos a conversar. Atingindo o que desejava, contou-me que a senhora se chamava Arilda. Ouvia dizer que dormia em escombros permutando periodicamente. Dona de temperamento explosivo. Havia expulsado o marido e os filhos ainda menores de casa. Se os vizinhos não queriam aproximação com ela, os empregados pior. Uma cabeleireira de mão cheia. Porém, ainda segundo o que se ouvia dizer, nunca trocou uma única palavra com os clientes. Se muito: sim, não. Posso, não posso. O esposo administrou a situação por anos, na esperança de que um dia mudasse. Louca? Traumatizada? Inconformada? Mal-amada? O que teria acontecido com ela para optar por dormir em escombros?
– Difícil opinar.
– Só psicólogos, psiquiatras e psicanalistas para entenderem e tentarem modificar.
– Facilmente solucionado com um trabalho de socialização, se o caso permitisse.
– Anos depois… Muitos anos depois, a vi na varanda do número 37, tomava sol. Certo dia, no bar, conversando com Jerônimo, teci algo para que dissesse quem era aquela senhora. Respondeu-me que era sua avó. A artrose a impedia de morar sozinha. Perguntei se viviam em harmonia. Sorriu balançando a cabeça.
Laura medita, expressa um gesto no rosto, ergue-se, estende o copo para que ele coloque cerveja, bebe e dirige-se para a gaiola. Brinca com o pássaro e, voltando-se, diz:
– A propósito, Mário conservava sobre a estante duas molduras vazias ladeadas.
– Representavam seus pais que não tivera oportunidade de conhecê-los, segundo nos dizia. Sempre de bem com a vida, dizia-nos que ele era prova viva do surgimento espontâneo.
– Posteriormente, o senhor questionou se haveria espiritualidade em um descuidista.
– Recordo.
– E?
– Não passou de um mero descuidista. Mas tinha capacidade para praticar grandes assaltos. Circulava onde desejasse sem ser percebido. Entraria e sairia daqui nesse momento sem ser visto. Sua última façanha: “Misterioso bombeiro…” Adentrou as chamas de um incêndio criminoso para resgatar 28 pessoas indefesas. Por que praticara o ato? Por que era a sua natureza.
Com a explícita conclusão do senhor Guedes sobre o tema da tese que defenderia: “Essência do Ser”. Laura o olha. Coloca o copo sobre a mesa, esboça um sorriso, estende-lhe a mão, agradece e diz que iria.
– Espero que se saia bem no trabalho. − deseja o senhor Guedes.
– Equilibrarei leituras.