*CONCEPÇÕES DE MILENA

Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.

– Ano que vem teremos eleições, Milena.
– É verdade, tia.
– Já definiu o candidato?
– Não mais votarei, tia.
– Por que não, Milena?
– Ao analisar custo benefício, descobri que não vale a pena.
– Por favor, Milena. Gasta-se um milésimo da sola do calçado para se dirigir ao local de votação.
– Até porque, tia, num desses dias, ao chegar ao portão, escutei uma jovem dizer para a amiga que iria a Gulacho a fim de realizar um exame pré-natal. Desnecessário dizer que o município de Gulacho fica a oito horas distantes daqui. Então fiquei a me perguntar que sob céu aquela bendita criatura estava? Sob o céu de um povoado, de uma nação ou de uma república? Não sei se o problema é universal, tia, mas sabemos que existe político esponja acercado de nefastos. Logo, fiquei a me perguntar: será que no aniversário do esponja. Escoras, parentes e amigos assim cantam? “Que Deus ao verme dê muita saúde e paz que os anjos digam amém…”
– Evidente que não, Milena.
– Por que não, tia?
– Ora, Milena, é a chave do sucesso da corja.
– Então, tia, se este tipo de político carrega consigo esse visgo, o bom político, na grande maioria, carrega consigo o visgo de pensar no engrandecimento físico do município, do estado e do país, e nunca no engrandecimento do elenco social. Portanto, concluir que ainda que seja ínfimo o desgaste da sola do calçado, continua dispendioso. Até porque, tia, de nada adianta aquela futura mamãe interagir com o mundo através do aparelho que tinha em mão se um banal e necessário exame médico estava quilômetros distantes do seu alcance. Todavia, não sei se a senhora concorda.
– …
– Assim penso, tia.
– … Você se afastou das redes sociais.
– Dei um tempo aos amigos virtuosos, tia.
– Virtuosos ou virtuais, Milena?
– Virtuosos, tia. Pois, embora incapazes de desenvolverem um raciocínio não oportunista, são considerados grandes pensadores. Até compreensivo, tia, pois vivemos ao sabor da cínica lei de sobrevivência. Então, ao me ver acercada por membros da “Sociedade Protetora dos Insetos e Mosquitos”, tentando me convencer para que os amasse, porque era vida. Repliquei que cuidassem da criação de chato e me retirei, convencida de que, por tais vias, a sociedade de preservação da fome e da miséria que campeiam têm realmente que existir. No entanto, tia, o que me irrita não é o grito do desesperado, e sim a comercialização da selvageria, encenação e mentira.
– De mau humor ou num daqueles dias, Milena?
– Nem uma coisa nem outra, tia.
– O que Margot queria?
– A ‘dona’ da Oster disse-me que a qualquer momento nos faria uma encomenda.
– O que você sabe sobre a vida secreta dela?
– Se é secreta, tia, o que poderia saber? Entretanto, com a autoafirmação em franca expansão, o que poderia ser secreto? Nem mesmo se comesse fezes seria secreto. Pois, bateria no peito e diria: “Como fezes. E daí?”
– Sujeita esnobe não é, Milena?
– Não passa de uma imbecil, tia. Convencida não sei de quê. Ao finalizar a conversa da prometida encomenda, disse que estava com pressa, pois trabalharia. Repliquei que faria o mesmo. Esboçou desdém. Então lhe disse para que não se esquecesse de marcar o ponto. Encarando-me, pisquei e sorri. Enfezou-se. Suspendeu os vidros e partiu.
– Enquanto conversavam, fiquei observando-a, Milena. Acredito que, se Hollywood a conhecesse, você daria muito trabalho às concorrentes.
– Verdade, tia?
– Você sabe que o elogio não é exclusivo meu.
–…
– … Ainda visita o quintal durante as madrugadas, Milena?
– Com tal pergunta, tia, o que pensaria de mim uma terceira pessoa caso aqui houvesse? No mínimo seria lunática. Ainda visito. Isso quando confusos sonhos me atormentam.
– Sonhos?
– São arco-íris, tia. Então, na quietude da madrugada, olhando as estrelas, procuro avistar algo que me conforte. Porque, tia, é muito difícil encontrar respostas no fenômeno vida.
– Como assim, Milena?
– A senhora existe porque eu existo, tia. Caso eu não existisse, a senhora, mesmo existindo, não existiria. O raciocínio não se aplica ao universo, porque, caso a vida não existisse, o universo existiria.
– …
– No velório do senhor Orlam me dirigi a ele e perguntei quem eu era. Nada respondeu. Interroguei-o: Quem é você? Também não obtive resposta. Para onde iria? Questionei-me. Na minha crença religiosa iria para algum lugar. Mas para a armação do próprio caixão, bem como para a parafinaria envolta, não iria a lugar algum.
– Mas, Milena, a identidade permanece.
– Ora, tia. Se para o moribundo: o ex-senhor Orlam. O universo nada mais significava, imagine a identidade? Portanto é muito difícil encontrar respostas no fenômeno vida. Até porque o que realmente existe é a mente. Somos fenômenos ambulantes. Embalados conforme efêmera imaginação.
–… Mestre “sinhô” trouxe dois peixões pra você… “Bico” nos lábios, cruzar de braços e sacudir do corpo. Não mesmo?
– Não sabia que a maré seria dele, tia. Nunca permite que eu participe da puxada de rede. Coisa que adoro. Diz que não é tarefa de princesa.
– Deveria se enaltecer, Milena.
– Não herdei a presunção de mamãe, tia.
– E o Ramires?
– Um amor de pessoa. O que tem ele?
– Degusta direitinho os doces e salgados?
– … Tia…
– A seriedade da conversa permanece, Milena. Aprecio a sua pontualidade: às 20:00 horas, o prato com doces e salgados encontra-se arrumado. Aguarda por Ramires para saboreá-los na praça.
– Mas o dia da realidade, a cada momento, aproxima-se, tia. Agradece-me constantemente pelos bons momentos que juntos passamos. As missas dominicais. A frigideira de ostras. As trocas de carícias no Bar Expectativa. Pela extraordinária tia que tenho. Pelas caminhadas diurnas e noturnas nas areias da praia e pelas conversas na praça saboreando doces e salgados.
– Vida é paz não é, Milena?
– Não para os insanos, tia.
– De fato, Milena.
– Portanto, a nossa bonança agoniza. O encantador delírio que juntos vivemos, chegará ao fim. A reforma da estação rodoviária está praticamente concluída. Começa a arrumar as malas para retornar definitivamente para a capital, pede-me para que o acompanhe. Porém, ainda que me sentisse atraída pela capital, não o acompanharia.
– Por que, Milena?
–…
– Não pense em mim, criatura.
– Tia, a senhora, há vinte e três anos atrás, não pensou em você quando mamãe colocou-me no berço e partiu.
– …
– … Volte, tia! Não é para se emocionar.