PONTO DE EQUILÍBRIO

Na vitrine do prédio da prefeitura, havia um revólver calibre 38, tambor com capacidade para sete munições e, ao lado, seis projéteis. No entanto, réplicas em cera.

O encontro de amigos perdeu o brilho assim que Teles dissera que desafiaria a lei da probabilidade. Estava falido. Portanto, o valor do prêmio oferecido pela roleta russa oficial do município, que correspondia a duzentos automóveis zero quilômetro, o livraria da situação de penúria… “Filosofo” replicou que era besteira. Ponto de Equilíbrio idealizado pela senhora Ninfa nada mais significava do que exaltação do cúmulo de estupidez. Uma vitrine, uma porta escancarada para reflexão de todo e qualquer tipo de tormento. Esquecia-se da sina vivida por Arcanjo? Caso não tivesse refletido diante da grandiosa obra idealizada pela senhora Ninfa ainda estaria convivendo com a sapeca “Tigresa”. E só Deus sabe o que teria acontecido.
O assombroso desejo de Teles voltou à baila no dia seguinte, quando jantava com os familiares. A mãe, que já estava ciente da asneira, ao ouvir a introdução do irritante tema, retirou-se da mesa, permanecendo o pai e a irmã. O pai o implorou para que reorganizasse a vida. Assim procedendo, teria 99,9% de chance de recuperar tudo o que perdera.
– Caso enfrente o estúpido desafio, terá 99,9% de chance de nos causar uma grande dor e tristeza.
– O que você deve fazer, meu bom irmão, é sacudir a poeira e seguir em frente, convencido de uma nova vitória. – disse a irmã.
No entanto, às dez horas da manhã do diante seguinte, Teles encontrava-se no gabinete do prefeito o qual, ao ouvir a predisposição do estúpido homem de 37 anos, pediu para que assinasse o termo de loucura e sublinhou que fraquejar estava inserido no contexto, mesmo que já estivesse no interior da cabine. Não seria um ato de covardia e sim de altivez. O s sensatos entenderiam muito bem.
A rádio da cidade havia divulgado insistentemente o evento. Eram vinte e uma horas do mencionado dia. A praça, onde o desafio aconteceria, estava repleta de curiosos e, no coreto, havia uma cabine montada. O prefeito, e a equipe de auxiliares, já se encontrava no local.
Teles, ao comparecer, escutou alguém do meio da multidão gritar: “É suicídio, Teles! Desista!”
O prefeito demonstrou que estava de acordo. Porém, retirou um revólver de verdade da caixa, de tambor com capacidade para sete cartuchos, e o carregou com seis projéteis, também de verdade. Girou o tambor, fechou−o e o entregou dizendo que a arma estava vedada, não havia como tentar espiar a sorte. Apontasse para a têmpora a uma distância de dez centímetros. Caso obtivesse sucesso, o que desejava, e o prêmio estaria à disposição. Aguardasse o aviso: uma luz vermelha piscaria no interior da cabine. Desejou-lhe sorte e repetiu:
– Fraquejar está inserido no contexto, mesmo que já esteja no interior da cabine. Sucesso!
Teles, como se fosse um forasteiro, dirigiu-se à cabine, sem se voltar um instante sequer para o amigável público que observava contrariado a sua descabida teimosia. Acessando−a, o delegado e oito policiais se dirigiram para o monitor. E Teles passou a ser filmado. O prefeito se distanciou. A luz vermelha piscou e um estampido se ouviu.
– Oh, meu Deus! − foi o que ecoou na praça…
– Foi besteira, Teles.
Os pais e a irmã de Teles se abraçaram em prantos, e os amigos em lágrimas. O médico confirmou a morte. O prefeito, entristecido, deixou a praça. O grande público, em silêncio, o imitou. Acessando−a na contramão, o pessoal do Instituto Médico Legal. Entrou para recolher o corpo do estúpido inconsequente.