PIZZARIA DO FANTASMA

Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.


– Qual fora o motivo de a conversa ter mergulhado em segredo de estado, Milena? Aliás, vocês sempre foram fiéis confidentes.

– E cofres também não é, tia?

– Dever, Milena.

– Mas posso abrir para a senhora.

– Agradecida. Pelo visto, Andreza está bem.

– Maravilhosamente bem, tia. Endereçou mil beijos para a senhora.

– Já retornou à capital?

– Já retornou sim. Fora uma visita rápida. Viera apenas para dar um abraço nos pais. Aproveitou o ensejo para contar em segredo que a “Pizzaria Márcio & Andreza”, então conhecida como “Pizzaria do Fantasma”, adquirira asas e hoje voa sobre agradável planície.

– Que bom, Milena.

– Mas passaram por maus momentos tia. Foram noites de insônia e choro. Não é pra menos não é, tia? Empregam-se reservas num objetivo e, na hora de a coisa girar, é surpreendido pelo marasmo.

– O que havia de errado?

– Sonho otimista, tia. Imaginaram transformar um ponto comercial morto em algo rentável. No entanto, por falta de aviso não foi. Pois o irmão do Márcio os advertiu. Disse que o ponto era campeão de desistência. Contaria nos dedos os dias em que permaneceriam nele. Mas, esperançosos, não deram importância. O resultado foram noites de insônia e choro.

– Péssima localização?

– É o caso, tia, tudo é questão de questão. Andreza disse-me que haviam se encantado com a localização do estabelecimento. Assim investiram no ponto transformando-o num brinco. No entanto, os dias foram passando e nada de a clientela aparecer.

– Doloroso isso.

– No entanto, numa noite chuvosa, a pizzaria com apenas um casal de clientes, e isso depois de dias comendo as unhas, Márcio, na porta do estabelecimento dirigiu-se a Andreza e disse, de modo despretensioso, que Rebeca não havia aparecido. A cliente a olhou e indagou se Rebeca tinha voltado a aparecer. Rebeca, tia, faz parte da lenda urbana de nossa capital. Contam que ela, uma mulher loira de origem desconhecida, costumava passear durante as noites entre as catacumbas do seleto e, eternamente em reforma, o cemitério São Mateus, cujos fundos davam para o ponto comercial que adquiriram. No entanto, fazia tempo que a aparição não acontecia.

– Não seria esse o motivo do marasmo do local, Milena?

– Como assim, tia?

– Um estabelecimento comercial próximo de um cemitério?

– Ora, tia, em toda parte do mundo é assim. Até mesmo aqui em nosso esconderijo.

-… É verdade, Milena…

– Mas a chuva que caía não intimidou o casal de clientes. Deixaram o aquecido recinto e foram se acomodar sob o toldo instalado na frente do estabelecimento que, segundo Andressa, protege quarenta mesas as quais, até aquele momento, mantinham o cheiro de novas. Ainda, segundo Andressa, dali avistam-se os jazigos através do gradil pertencente ao cemitério. O casal, então acomodado sob o toldo, solicitou outra pizza e ficou observando a indesejável casa eterna na expectativa de avistar o fantasma. Todavia e obviamente o tempo passou e nada avistaram. Porém, o acompanhante da dama, ao se retirar, afirmou que fora uma noite emocionante mesmo sem terem avistado Rebeca. A Andreza e o Márcio se olharam e concluíram que a expansão da clientela seria através daquilo. Quem era o administrador do cemitério? O irmão de Márcio, tia. Daí ter dito que contaria nos dedos os dias de permanência no ponto. Nascia o marketing da pizzaria. Naturalmente que a senhora sabe quem é Andrai.

– Irmã de Andreza.

– Portanto a história estava montada.

– Mas Andrai não é loira, Milena.

– Ora, tia. Químicos da linha de embelezamento trabalharam anos a fio pra quê? Seria até injustiça não prestigiá-los. No entanto, não foi fácil convencer o irmão de Márcio da necessidade de uma força. Receava perder o emprego. Para convencê-lo, disseram que a história já existia e ele só facilitaria a encenação. O fantasma Andrai se comportaria como todo bom fantasma. Daria umas voltas entre os jazigos e, ao perceber aproximação de humanos, se distanciaria e desapareceria. O implorado, ainda não convencido, lembrou-se de que o celular era um excelente instrumento para filmar flagrantes. Portanto, haveria filmagens e fotos que poderiam comprometê-lo. Contra-argumentaram que, de igual modo, não fugiria à regra dos fantasmas fotografados. A semiescuridão do cemitério ofertaria borradas capturas. Depois de muito insistirem, aceitou ajudá-los. Mas não seria rotineiramente, advertiu. Tia, a escassez de clientes era tão grande que a encenação ficou de molho durante cinco dias. Andrai, irada, já prometia desistir. Pois passava todo o dia de lenço escondida, por causa dos cabelos pintados de loiro. Mas surgiu um casal de clientes no estabelecimento. Não chovia. O casal se acomodou sob o toldo. Enquanto a pizza assava, ambos bebendo algo, Márcio se posicionou na porta e, conversando com Andreza, disse que tinha avistado Rebeca. O casal sentado, voltado para o cemitério ao entender a que se referia... “O senhor avistou Rebeca?!” Márcio confirmou: tinha acabado de avistá-la. Havia circulado entre os jazigos e sumido. O casal tesou as vistas na direção do cemitério. “O fantasma Andrai” surgiu. E, como o irmão de Márcio havia previsto, o casal estendeu os aparelhos celulares na direção. A cliente, após conferir as imagens captadas, fez uma ligação e, emocionada, pediu para que conferisse. Tinha captado o fantasma de Rebeca. Minutos depois, a pessoa com quem havia se comunicado comparecia à pizzaria acompanhada de mais três amigas. O “fantasma Andrai” se exibiu por alguns minutos e desapareceu. Então, tia, a partir daquele momento, o número de clientes só fez aumentar. Segundo Andreza, é casa cheia de terça a domingo. No entanto, as aparições atualmente são maneiras. Não mais acontecem com frequência. Temem ser descobertos. Mas como a curiosidade pelo além é fato, acreditam que, enquanto o cemitério existir, o fantasma de Rebeca “aparecendo” ou não terão farta clientela.