REENCARNAÇÃO

Milena reflete sobre o assassinato de um casal, enfeita uma antiga história de amor, imprópria e trágica, e especula sobre a ideia da reencarnação.


ENQUANTO TIA E SOBRINHA PREPARAVAM DOCES E SALGADOS DO SUSTENTO DIÁRIO, AMBAS CONVERSAVAM.


– Tia, segundo eu li, a ideia da reencarnação é mais ou menos assim: condução do corpo que o espírito encarnou à perfeição atingindo assim o aprimoramento. Ou, no meu *abesullar, tia. Replicar irresponsavelmente experiências vividas.

– Muito bem, Milena! Mas qual o motivo da abordagem do assunto?

– Refletindo sobre o assassinato do casal de desconhecidos ocorrido recentemente no restaurante Estrela do Mar, tia.

– Estou ciente, Milena.

– Veja se faz sentido, tia. Pois, outra escolha não restou.

– Conte, Milena.

– O local ainda preservava aspecto de arraial: praça arborizada, ‘balaustrada’ e a praia em seguida A jovem que havia estacionado o carro sob um das árvores e caminhado na direção da ‘balaustrada’ transparecia que tinha ido ali impulsionada por uma força: expressava hesitação. Junto ao muro, apreciando o mar, escutou suave voz masculina dizer que ela estava atrasada. Com as vistas unidas, olhou para o desconhecido e perguntou se o conhecia. Sua resposta foi uma pergunta: recordava do navio encalhado? Olhou para a embarcação abandonada, cerca de cento e cinquenta metros, e assentiu com a cabeça. Então, não eram desconhecidos, ouviu. Mas ela, tia, sentia-se como se estivesse entorpecida. Voltou a olhar para o homem e, pensativa, dirigiu-se a ele e sentou-se a seu lado. Ele ofereceu-lhe cigarros. Ao fazer uso, confessou que também acreditava que tinha ido ali conduzido por uma força. Será que o segredo deles tinha sido violado? “… No navio…” Balbuciou ela. Seria fácil saber. Um dos pescadores os conduziriam até a embarcação. Referia-se, tia, aos pescadores desocupados sob o quiosque. Faziam o trajeto quando requisitados. Dirigiram-se ao quiosque e, durante a contratação do serviço, ela ficou observando a transação como se estivesse desacostumada com aquilo. O companheiro havia efetuado o pagamento através de uma máquina cedida pelo condutor da pequena embarcação. Ao sabor do barco deslizando sobre as águas, escutou do companheiro recordar-se de que alguns amigos faziam aquele trajeto a nado… Qual o motivo da expressão, tia?

– Aqui, há anos, Milena houve um navio de pequeno porte que encalhou, enfeitava a praia. Afundou completamente com o passar dos anos. Recordo-me de que, às vezes, o alcançava a nado. Quando jovem, naturalmente.

– Chegaram ao navio. O segredo havia sido depositado no camarote do comandante. O companheiro enfiou a mão num orifício do falso cofre e retirou um frasco onde continha um par de alianças. A partir de então, tia, brotaram-se questionamentos. Por que o par de alianças tivera que permanecer ali e não nos dedos deles?…

–… Continue, Milena…

– Simples de responder, tia. Pois o que haviam construído dava naquela encruzilhada. Tarde para recomeçar? Talvez não, tia. Porém, para onde fossem, levariam apenas roupas nas malas. Porque a vida deles estava enraizada ali.

– Deve-se olhar atento por onde se caminha, Milena, porque, às vezes, é tarde demais.

– Todos caminham atentos, tia. No entanto, só enxergam-se flores.

– No caso específico, Milena, eventualmente flores artificiais.

– Alguma amarga recordação, tia?

– Não me enquadro para não soar como convencida, Milena. Mas posso dizer que a dupla, Aldo e Jandira, não merecia casar com as desgraças que casaram. Que Deus os conserve onde estão.

–… Permaneceram conversando. Trocaram carícias e choraram. Depois de muita lamentação, resolveram retornar. De volta à praça, saíram caminhando sugerindo um deles visitar a capela São Roque. Por que a capela, tia? Por que é nela que se conheceram. Recordações sucumbidas, mais lágrimas, carícias e confissões por não terem obedecido aos corações. Trauma extravasado, decidiram almoçar no restaurante Estrela do Mar…

– Estando ambos à mesa foram mortos por um pistoleiro

– Isso, tia.

– O Aldo e a Jandira, então falecidos, Milena. Foram meus amigos. Essa história, que você enrustidamente conta, cujo propósito é obvio, antecede ao seu nascimento.

– Sim, tia.

– Os mandantes dos assassinatos foram a esposa do Aldo e o marido da Jandira. Fingiram que haviam os libertado, digamos assim. No dia em que estiveram na capela, fora certamente para reviverem como se conheceram, ou seja, na capela. Depois foram almoçar no citado restaurante e mais uma vez, certamente, para comemorarem a liberdade. À mesa. Fora o estabelecimento invadido por um pistoleiro que os assassinou.

– Isso, tia.

– Continue, Milena.

– O automóvel do casal de desconhecidos assassinados na semana passada, no restaurante Estrela do Mar, tia. Adentrou a Praça Anzol, por volta das 10:30 horas, estacionou sob um das árvores e ali permanecera por bom tempo. O casal, tempos depois, se dirigiu para a mencionada Capela São Roque, permanecera por alguns minutos e seguiu para o restaurante. Nesse momento, um carro parou próximo. Acredita-se que o casal estava sendo observado. O senhor Vandré, experiente e antigo garçom, contou-me que aparentava ser amantes. Ela estava assustada. Dado prosseguimento no atendimento à jovem, não tirava as vistas da mesma em que Aldo e Jandira foram assassinados, fato que nem mesmo o antigo garçom se recordava, ao menos naquele momento. Por cortesia, disse que havia mesas livres, melhores posicionadas. Retrucaram que aquela mesa estava ótima. Sentaram-se e, momentos depois, se iniciou a confusão: alguém empunhando arma tentava adentrar o restaurante. Ao se erguerem, foram alvejados e mortos, supostamente pelo marido dela, ainda não se sabe. Pergunto tia: o que foram fazer na Capela São Roque? Os assassinatos do Aldo e da Jandira, além de ter acontecido há décadas, nunca repercutiu. Qual teria sido o motivo da curiosidade sobre a mesa-palco?

– Com a prosa parcialmente ilustrada, Milena. Você quis dizer que os espíritos de Aldo e de Jandira, donos de uma história de amor traumática, se encarnavam no casal de desconhecidos e os arrastaram para cá?

– Perfeitamente, tia. No início de nossa prosa, disse que, segundo eu li, a ideia da reencarnação era mais ou menos assim: condução do corpo que o espírito encarnou à perfeição atingindo assim o aprimoramento. Ou, no meu abesullar. Replicar irresponsavelmente experiências vividas.

– Replicaram, irresponsavelmente, experiências vividas?

– Parece-me, tia.

– Para se pensar, Milena.


*Abesullar: espiar, examinar.