RETRATO DE UMA IDEIA FIXA

O texto talvez seja dúbio. Mas, guiado, torna-se de acessível leitura. Ralf, desenha o horror de uma imaginação afetada. Convencida da existência de uma terceira pessoa.


A cisma vã materializou de vez às 2:00 horas da madrugada de uma terça-feira do mês de outubro. Ao despertar com o movimento brusco da cama, Ruth estava sentada.

– Pegarei o rifle. – disse-me.

– O que está havendo? - perguntei.

– Há alguém no pavimento inferior.

– A visagem?

– Não ironize, Ralf. Há movimentação. Escutei.

Ao dizer, desceu da cama e se apossou do rifle. Levantei-me, retirei o 38, cano longo, do criado-mudo e, cautelosos, descemos. Não acendemos as luzes. Precavidos com armas em posição de tiro, percorremos a sala, em seguida a cozinha, e depois o banheiro. Nada avistamos. Em dado momento, Ruth disse que havia movimentação no depósito de ferramentas. Levou o dedo aos lábios pedindo-me silêncio. Preparei-me. Ao escancarar a porta disparei… Ruth, ao ascender a luz, vibrou:

– Na mosca, Ralf!

Uma cinematográfica mulher jazia no chão.

– Formidável, Ralf! Formidável! Na mosca! – voltou a vibrar.

Olhei para o corpo e quis saber o que faríamos com ele.

– Enterrá-lo, ora bolas!

A cinematográfica mulher, em traje cigano, mantinha os lindos olhos verdes abertos e tesos. Limpamos o local e, em seguida, providenciamos a escavação. O dia amanhecia quando concluímos a empreitada. A cova media um metro e meio de profundidade por noventa centímetros de diâmetro. Arrastamos o corpo e o atiramos no buraco.

–… A desgraçada pesa. − queixou−se

Rolamos uma tora de madeira e deixamos cair sobre o corpo: o encobriu. Preenchemos com terra o espaço vazio.

– Descanse em paz! − desejou.

Apesar de o dia já ter amanhecido, nos asseamos e retornamos para a cama. A visagem estava morta e sepultada. Descansava para sempre.

Foram dois dias depois, quando escutei a porta da Pick-up bater violentamente. Péssimo sinal. Maldei. Ruth adentrou a sala esbaforida, indagando-me aos gritos quem fora a sósia da fulana que eu havia atraído para ali e a matado para tranquilizá-la?

–…!

– Fez-me de idiota. Avistei a dita cuja no mercado.

– Ruth?

– Pagará pelo assassinato da sósia. Juro que vai.

Então, na manhã do dia seguinte, despertei com o ruído de automóveis. Ao chegar à janela, meia dúzia de viaturas da polícia invadia a propriedade. Ruth descera de uma delas e, ao avistar-me, apontou-me. Vesti-me e desci decidido a colaborar com a lei. O Xerife perguntou-me pela arma do crime. Prontamente a entreguei.

– Confirma ter assassinado uma mulher, conforme a sua esposa relatou?

– Matei sim.

– Onde está o corpo?

– Na cova ao lado.

– Mostre-me.

No ínterim, olhei para Ruth. Tinha as vistas voltadas para o lado oposto… Apontei o local. Pás foram providenciadas. E o trabalho iniciado.

–… Há um tronco de árvore, Xerife. Precisamos de uma máquina para retirá-lo. – comentou um dos policiais.

Havia muitos policiais. Escutava insistentemente de um dos rádios das viaturas a informação de que não constava registro do desaparecimento de mulher cigana. Olhei mais uma vez para Ruth. Momentos depois, a máquina se arrastava em nossa direção. Preparativos foram realizados e a tora de madeira fora içada. O Xerife e vizinhos, após olharem para o fosso vazio, voltaram-se, encarando-me.

– Onde está o corpo, rapaz? − indagou o Xerife.

– Coloquei-o aí. – respondi.

Ruth irradiava estarrecida com a verdade.

– Ele o colocou aí. – sustentou.

Não éramos totalmente desconhecidos dos policiais. O Xerife, após balançar a cabeça, ordenou que me algemassem. A Ruth também foi detida. Relatei a história dezenas de vezes. Dias depois, abriram a cela e disseram-me que podia ir embora. Ao chegar a casa, Ruth, que fora liberada primeiro, me aguardava.

– Ela existe e está viva. Você me enganou. – afirmou.

– Por favor, Ruth. – supliquei.

A verdade é que tudo desmoronou no abandono. A nossa espaçosa casa de dois pavimentos, erguida na floresta, e a Pick-up adquirida com a finalidade de também desbravar horizontes, agonizam. Colmeias empesteiam as árvores. Não mais viajamos. Não mais plantamos. Não mais colhemos e não mais atiramos em garrafas ou em latas vazias. Permanecemos sob o mesmo teto não sei por quê. O silêncio que reina. A cova. Desastroso marco criado por Ruth, que serve para a atenta curiosidade dos vizinhos, permanece viva. Vez por outra, flagro-os cruzando a nossa propriedade com olhares maldosos voltados para ela. Tudo é muito triste. Durante as minhas inquietas noites, à escrivaninha, tentando pôr essas linhas no papel, avisto a então apática Ruth vestida no maltrapilho pijama, subindo as escadarias, dirigindo-se para o cômodo que delegou para dormir longe de mim. Oro, todavia, todos os dias, a Deus para que ela desperte para a realidade que insiste em não enxergar. Enquanto a bênção não acontece, atiro mais um cigarro fora e me apago em um lugar qualquer.


Entenderam? Ralf, desenha o horror de uma imaginação afetada. Convencida da existência de uma terceira pessoa.