UM ESCRITOR E UM EDITOR

O editor tece uma ideia figurada: Ongulu, cédulas replicadas e os misteriosos membros da família Frean. O escritor para quem a história foi criada evita escrevê-la.


O escritor entendeu a intenção do editor. Havia idealizado uma história e queria que ele a desenvolvesse. O escritor, justificando a impossibilidade do pleito, pois, segundo o próprio editor, narrava histórias típicas de motoristas enfrentando um louco e complicado trânsito. O editor, ignorando a desculpa, diz:

– Não quero desperdiçar o raciocínio: Então pensei em você. Pois o seu nome vende bem.

– As minhas histórias são bem-aceitas. – replica o escritor.

– Lógico que são.

– Faz ideia do título? – indaga o escritor.

– Ficará a cargo de quem abraçá-la.

A história premeditada imaginada pelo editor girava em torno de três questões: aparição de um homem em várias partes do mundo; existência de cédulas replicadas circulando; e o mistério da família Frean.

– Apenas superficial abordagem. – diz o editor.

– Eu o escuto.

– Haveria falas da existência do Ongulu. Porém, só seria fotografado nos anos de um mil oitocentos e pouco. Anos em que a máquina fotográfica tornava-se popular. Seria fotografado casualmente. A foto foi parar no rol de “fotografias perdidas”. Anos depois, alguém lendo uma revista cuja matéria destacava fotos perdidas, observaria estrita semelhança entre os esquisitos homens fotografados em épocas e países distintos. E, mais uma vez, nos dias mais próximos dos nossos, máquinas fotográficas de última geração. Seria ele captado em diversas partes do mundo. Quando então seria identificado com sendo o Ongulu.

– História fictícia.

– Acredito.

– E pede-me ajuda.

– Como vê.

O escritor repete a justificativa da impossibilidade da solicitação. A sua imaginação limitava-se no desenvolvimento de histórias típicas de motoristas enfrentando um louco e complicado trânsito. Portanto, não passeava no campo da fantasia maligna ou benigna. Se muito se aproximasse da figura, Ongulu seria um viajante do tempo.

– Não deixa de ser uma sugestão. – replica o editor.

– Longe de ter sido uma sugestão.

– Não quer mesmo se comprometer/

– Não.

–… Não mais escrevo – argumenta o editor. – Sinto-me melhor imaginando do que com lápis e papel à disposição. Atrás de uma máquina de datilografia ou até mesmo diante de um teclado de computador. A dificuldade persistiria. Não conseguiria construir compreendidamente a história que imaginei.

– Gostaria de poder ajudar.

– Acredito.

O editor prepara um café, serve-o e volta a sentar-se.

– Agradecido.

–… Ongulu seria uma entidade. Do mal ou do bem, não sei. Não me posicionei a respeito. Competirá ao desenvolvedor da história firmar conceito… Poderia até mesmo ser um sentimento.

O escritor sugere o nome Voaci.

– Voaci? – indaga o editor refletindo.

– Charles Voaci é bom nisso. Até pedra canta e assobia. Muitos escritores carentes em manipular fantasia recorrem a ele.

– Sei quem é.

– Então?

– Pernóstico. Quanto às cédulas replicadas e não falsificadas em circulação, haveria pouco a se explorar. O montante delas seria algo em torno de trinta por cento do total circulante. Apalpadores desse universo saberiam que havia cédulas replicadas. E também, se porventura alguém fora desse universo as apalpasse, nada também aconteceria, pois você deve imaginar como as coisas são.

O escritor suspira e pergunta sobre a família Frean.

– Mistério… Só seria tratado como mistério depois que se mudassem, ou melhor, depois que supostamente se mudassem. “Ué! Cadê os membros da família Frean?” Indagava-se. Comentários surgiriam: pessoas afeiçoadas e decentes etc. etc. etc. Seis meses se passariam e a residência permanecia fechada. Momento então oportuno para que o vizinho resolvesse um problema. Já que vivia prejudicado pela tubulação de esgoto da residência dos bacanas. Adentraria a residência abandonada… Se alguém havia ali residido, fazia décadas… Encontraria uma foto ou a imagem de Ongulu e algumas cédulas replicadas O mais interessante não haveria nos cartórios registros da existência da família Frean.

– Fantasmas?

– Quem sabe.

O escritor, autor de histórias típicas de motoristas enfrentando um louco e complicado trânsito. Como o editor havia recentemente criticado, olha demorado para os oitenta e cinco anos de idade do editor e, fitando os ornamentos do gabinete: livros, medalhas e troféus, o editor observa:

– As suas produções literárias ajudaram na formação do acervo.

–… Gostei da silhueta da história. – diz o escritor.

– Deu para entender o que seria Ongulu? As cédulas replicadas e a ilusão da existência da família Frean?

– Fácil para mim.

– Tem a ver com motoristas enfrentando um louco e complicado trânsito. – afirma.

– Percebi.

– Não quer desenvolvê-la?

– Não conseguiria.

– Pés no chão.

– Acredito.

– Sabe o que eu pensei que você fosse me dizer?

– Não faço a mínima ideia.

– “Sugere que construa a poltrona da minha ruína?” No entanto, retornaria: precisa-se saber quais seriam os tópicos.

O escritor o encarando:

– Perdoe-me! – pede o editor – Mas é a minha visão, hoje, aos oitenta e cinco anos de idade.

O escritor medita e tece:

– Sabe qual seria o título que daria à história caso a abraçasse?

– Ignoro.

– “Na via contrária”. Ou “na contramão”.

– De quê? – indaga o editor estendendo-lhe a mão.

O escritor retribui o cumprimento. Levanta-se declina a cabeça e se retira.