VIDA ALHEIA

Tom Gadri tinha mania de espiar os vizinhos através do olho mágico. Apostava que o vizinho era fantasma. Certo dia, algo inusitado aconteceu.


Na nova recente morada: num condomínio de apartamentos com quarto e sala. O gerente de banco, Tom Gadri, 37 anos, não conseguiu desfazer-se do hábito que tinha, o de espiar, através do olho mágico, a movimentação dos vizinhos. Assim o fazia. Acomodado, às escuras, na poltrona da sala, ouvidos sob atenta escuta, estava decidido a entender o que acontecia. Decidido a enxergar o que não conseguia ver. Escutou o ruído do elevador parar no andar, em seguida pisadas. Não era o aguardado objeto da curiosidade, pois havia pisadas. A lâmpada do corredor, acionada por sensor de presença, acendeu e o dono dos passos percorreu o caminho. Momento depois, voltou a ouvir o pertinente barulho do veículo parando no andar. Seria, sem dúvida, o objeto de curiosidade. A porta do elevador se fechou e nada mais ouviu. Então, no olho mágico, acompanhava o misterioso sucedido: o sensor de presença acionou a lâmpada, porém nada avistava. Contudo, a porta do apartamento de frente posicionada, à esquerda, isso por questão de privacidade, abriu e em seguida fechou-se… O que via era fato. E não repetidas coincidências, nem muito menos ilusão. O gato correndo assustado era testemunho de que aquele vizinho era fantasma.

– Ora, Keline, eu sei que estou me referindo a uma unidade. Mas não poderia dizer que resido num prédio de ‘não-recomendável’. Portanto o correto é dizer que resido num prédio de ‘não-recomendáveis’. − dizia ele ao telefone. – Ora, Keline, sei que no apartamento em frente reside uma alma penada. Tento dormir, mas não consigo. Fecho os olhos e vejo um mundo de almas penadas e uma delas severamente me olhando… O elevador para no andar, mas não há pisadas. O sensor de presença do corredor é acionado sem visível presença de alguém. Em seguida, a porta do apartamento de frente abre-se e fecha-se visivelmente sozinha… Ora, Keline, caso o gato da vizinha do 1609 falasse, você não duvidaria. Não fala, no entanto, reage. Aposto que o bichano fica em posição de fuga. Então, quando avista a assombração, dá no pé. Você sabe que os animais têm poder de ver alma do outro mundo… São sonhos sobre assombrosos sonhos, Keline. O mais recente foi que vencia os inquietantes pensamentos e dormia. Em plena madrugada despertava com forte movimentação no corredor e espiava no olho mágico. Do apartamento suspeito saía, na maca, algo estranho e esquisito. Não dava pra distinguir se era ET ou Zumbi. Destemido, abria a porta ao inteirar-me. Um dos socorristas respondia que havia falecido. Um parente distante tinha sentido a ausência da coisa e telefonado para eles… Longe disso, Keline. Às vezes, trago serviço do banco para concluir. Portanto, não disponho de tempo para cuidar da vida alheia… Pode ser o quê? Reflexo? Não e não, Keline. O gato não refletiria assim… Ora, Keline. Foi por acaso e não intromissão. Como começou? Certa noite, despertei com conversas, aproximei-me do olho mágico e não avistei ninguém. No entanto, a luz do corredor estava acesa e a porta do vizinho, aberta. A conversa propagava dali. Eram muitos penosos tagarelando. Assim parecia. Depois das repetidas despedidas passaram: presumivelmente, pois nada vi. Em seguida, escutei a porta do elevador se abrir. Então, a partir desse momento, passei a vigiar… Tudo bem, Keline, se acha que é criação, façamos o seguinte: convido você para presenciar.

Eram 20:30 horas do dia seguinte. Tom Gadri e Keline haviam trazido comida da rua e jantado. Acomodavam-se na poltrona da sala, ambos manuseando os seus respectivos celulares. De repente escutam o estanque do elevador parar no andar. A porta se abre e, em seguida, passos apressados. Tom Gadri, sem tirar as vistas do aparelho, diz:

– A vizinha do 1610… É sempre assim.

Escutam ruído de chaves manuseadas nervosamente. Em seguida a ouve-se o barulho da porta batendo.

– Nossa! Apertadona. – comenta Keline.

– Gourmet de um restaurante internacional.

Keline deseja saber qual seria, por ordem de chegada, a colocação da visagem. Tom Gadri responde que, em seguida, seria a… do 1612. Depois o orelhudo do 1616 e posteriormente o fantasma.

– A… do 1612?

–… Dentuça.

Ela o olha e retorna as vistas para o celular. Tom Gadri diz que o orelhudo era médico. Ouvia dizer que respondia a três processos por negligência profissional.

A agonia do elevador se repete e escutam pisadas possantes. Keline se aproxima do olho mágico, vê que a luz do corredor acende, as firmes pisadas passam deixando para trás fragrância de perfume penetrada através das frestas da porta. Volta-se inquirindo pontuado.

– A “dentuça” do 1612?

– Delegada. Adora dizer que prende e atira.

– “Dentuça”?

– É.

Balança a cabeça e volta a sentar-se. Momentos depois o médico cruza o corredor.

–… O orelhudo charlatão. – cochicha Keline.

Tom Gadri confirma rindo e diz que o fantasma seria o próximo.

O elevador estanca, escutam a porta do elevador abrir-se e nada mais. Keline salta da poltrona e, no olho mágico, espia. A luz do corredor acende a porta do vizinho de frente, abre e depois fecha. Volta-se com a mão na boca.

– Meu Deus!

– Acredita? – inquire Tom Gadri.

– Incrível!

– Durma com um barulho desse e diga que dorme bem. – resmunga ele.

Keline, vistas unidas, meditando, caminha lado a outro. De repente, pergunta se poderia tomar uma iniciativa.

– Bater à porta da visagem?

–… Não… Permite-me?

Permite. Interfona para a portaria… Segundos depois…

– O apartamento 1603, Tom, está desocupado há mais de oito meses.

Tom Gadri medita...

– … Criação da mente, Tom.

Expressa não convencido.